Celebramos
o terceiro aniversário da morte de nossa Irmã Dorothy.
Em 12 de fevereiro de 2005 ela foi brutalmente executado. Durante
esses três anos muitas vezes fui perguntado por que uma Irmã
que consagrou sua vida aos pobres e acompanhou sua luta por mais
dignidade, por justiça e pelos mais elementares direitos
de ter um chão para plantar e colher, por que essa Irmã
dos pobres sofreu uma morte tão cruel. A resposta é
simples e todos nós sabemos qual é. Ao colocar-se
decididamente ao lado dos desfavorecidos, excluídos por um
sistema capitalista selvagem que reina em nossa região, ela
contrariou os interesses e as ambições de uma oligarquia
que quer apoderar-se da Amazônia para usufruir de suas riquezas
sem nenhuma preocupação pelas conseqüências
para as futuras gerações. O lema é „aproveite-se
enquanto puder“ e quem esboçar uma reação
contra esta investida, corre risco de vida porque os representantes
deste sistema agressivo à Amazônia reagem e conspiram
imediatamente contra quem não rezar por sua cartilha. Dorothy
foi vítima de seu amor à Amazônia. Por causa
deste amor perdeu a vida. |
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A
classe política se fez presente no dia do sepultamento de nossa
Irmã. Anapu nunca viu tanto senador e deputado federal ou estadual.
Hoje estou convicto de que a maioria dos que se fizeram presentes naquele
funeral veio por causa da mídia que cobriu o triste evento. Essas
autoridades que choraram ao lado do féretro queriam mostrar para
o mundo que não compactuam com a morte e violência na Amazônia.
Mas não deram nenhuma amostra de engajamento corajoso e valente
para mudar a realidade. Não se converteram e a idéia de
desenvolvimento que têm em relação a nossa região
é meramente economicista. Pensa-se só em lucros imediatos
e propositadamente se ignora as perdas irreparáveis. Delega-se
às futuras gerações o enfrentamento da desgraça
causada nestes tempos. É abominável uma geração
descuidar de seus filhos e netos, deserdando-os por privá-los das
mais elementares condições de sobrevivência.
Nos
meses passados fomos sempre de novo alertados para o risco que a Amazônia
corre, de sofrer danos sem precedentes. O ambicioso Plano de Aceleração
do Crescimento, PAC, visa melhorar a infra-estrutura de transportes, comunicação
e energia na região. À primeira vista o plano parece favorável
à região. No entanto traz no bojo a ameaça de destruição
da maior floresta tropical do mundo. Ao lado das investidas da parte de
fazendeiros que mesmo multados insistem nas queimadas, ao lado da exploração
por parte de madeireiros que, apesar de terem sido confiscados milhares
de toras, continuam a derrubar, serrar e transportar clandestinamente
madeiras de lei, ao lado desta depredação já em curso,
a construção de barragens e de extensos linhões para
transmissão de energia elétrica levará fatalmente
a um desmatamento generalizado.
Irmã
Dorothy foi morta porque denunciou essas agressões ao meio-ambiente
que já a médio prazo prejudicarão o lar (oikos) habitado
pelos povos da Amazônia.
Causa-nos
revolta e indignação que o segundo julgamento do réu
confesso Rayfram foi anulado, alegando-se que, “ao executar a freira,
estaria potencialmente sob ameaça de cinquenta homens armados,
os posseiros de Dorothy Stang“. É incrível até
que ponto um advogado de defesa chega e mais incrível ainda é
que não foi preso por ter levianamente acusado os agricultores
do PDS de “pistoleiros“, equiparando-os ao criminoso que matou
a Irmã. E pior, graças a essa intervenção
o júri é anulado!
Que
Justiça é essa que de repente inverte os papéis,
imputando a criminalidade à pobre Irmã que derramou seu
sangue e alegando legitima defesa para o assassino que disparou cinco
tiros em cima da vítima indefesa, cuja única arma fora a
Bíblia Sagrada?
Que
Justiça é essa que depois de três anos não
conseguiu ainda completar os inquéritos ou então os encerrou
por motivos que nunca conseguem convencer-nos?
Que
Justiça é essa que adia de ano em ano o processo contra
pessoas altamente suspeitas de ter encomenado o crime?
Que
Justiça é essa que nunca levou a sério a existência
do “consórcio do crime“ nesta terra?
O
Evangelho proclamado neste dia (Mt 6,5-14) faz parte do Sermão
da Montanha. Jesus ensina a seus discípulos e discípulas
a rezar. É a oração por excelência da Igreja
e de todos os cristãos e cristãs. Cada versículo
merece uma meditação especial, cada palavra é sacrossanta
e toca o nosso coração.
No
contexto desta Santa Missa em que lembramos o terceiro aniversário
de morte da Irmã Dorothy, escolhemos o pedido “Venha nós
o vosso Reino!“
Nascemos
neste mundo, mas somos cidadãos, cidadãs de outro mundo.
Somos chamados a colaborar na construção de um Reino que
não é deste mundo, mas é para este mundo. Essa missão
não é nada fácil. Somos enviados “como ovelhas
entre lobos“ (Mt 10,16; Lc 10,3). Muitos rejeitam a mensagem que
queremos anunciar. Não a rejeitam apenas, mas querem eliminar a
mensagem e a quem a anuncia. Mas também nesta realidade conflitiva
ouvimos as palavras de Jesus: “o servo, a serva não é
maior que o seu senhor. Se eles me perseguiram, também a vós
perseguirão“ (Jo 15,20). O Reino é dádiva divina,
é graça de Deus, mas não dispensa nosso empenho.
O que caracteriza mesmo o cristão, a cristã, é a
perseverança em meio a adversidades e frente ao ódio e à
violência.
Tombam
irmãos e irmãs, sacrificados, executados pelos asseclas
de um sistema iníquo, mas quem acredita no Reino de Deus e em sua
justiça, não vacila nem treme. O sangue derramado de Irmã
Dorothy, de Dema, de Brasília e de tantos outros por esta Amazônia
afora é semente fecunda que se multiplica em inúmeros irmãos
e irmãs que continuam no Caminho, apostam na utopia do Reino, acreditam
no triunfo final de Cristo Senhor, não recuam e, se preciso for,
estão dispostos a dar até a própria vida.
“Venha
a nós o Vosso Reino!“ “Reino da verdade e da vida,
reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor
e da paz” (Prefácio de Cristo Rei). Amem.
*Erwin Krautler, 68, bispo do Xingu (PA)
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