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Veneráveis irmãos e diletos filhos
Saúde e bênção apostólica
INTRODUÇÃO
1.
O empenho em anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados
pela esperança mas ao mesmo tempo torturados muitas vezes pelo
medo e pela angústia, é sem dúvida alguma um serviço
prestado à comunidade dos cristãos, bem como a toda a humanidade.á
É
por isso que a tarefa de confirmar os irmãos, que nós recebemos
do Senhor com o múnus de sucessor de Pedro (1) e que constitui
para nós "cada dia um cuidado solícito" (2), um
programa de vida e de atividade e um empenho fundamental do nosso pontificado,
tal tarefa afigura-se-nos ainda mais nobre e necessária quando
se trata de reconfortar os nossos irmãos na missão de evangelizadores,
a fim de que, nestes tempos de incerteza e de desorientação,
eles a desempenhem cada vez com mais amor, zelo e alegria.
Evocação
de três acontecimentos
2.
E é precisamente isso que nós intentamos fazer agora, no
final deste Ano Santo, no decorrer do qual a Igreja, ao "procurar
infatigavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens" (3), outra
coisa não quis senão desempenhar-se do seu ofício
de mensageira da Boa Nova de Jesus Cristo, proclamada em base a dois lemas
fundamentais; "Revesti-vos do homem novo", (4) e "Reconciliai-vos
com Deus".(5)
Queremos
fazer isso, também, neste décimo aniversário de encerramento
do Concílio Vaticano II, cujos objetivos se resumem, em última
análise, num só intento: tornar a Igreja do século
XX mais apta ainda para anunciar o Evangelho à humanidade do mesmo
século XX.
Queremos
fazer isso, ainda, um ano depois da terceira Assembléia Geral do
Sínodo dos Bispos, dedicado, como é sabido, à evangelização;
e fazemo-lo também porque isso nos foi demandado pelos próprios
Padres sinodais. Efetivamente, ao concluir-se essa memorável Assembléia,
eles decidiram confiar ao Pastor da Igreja universal, com grande confiança
e simplicidade, o fruto de todo o seu labor, declarando que esperavam
do Papa um impulso novo, capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais arraigada
na força e na potência imorredouras do Pentecostes, tempos
novos de evangelização.(6)
Tema
muitas vezes realçado no decorrer do nosso pontificado
3. Quanto a este tema da evangelização, nós tivemos
oportunidade, em diversas ocasiões, de realçar a sua importância,
muito antes das jornadas do Sínodo. "As condições
da sociedade, tivemos ocasião de dizer ao Sacro Colégio
dos Cardeais, a 22 de junho de 1973, obrigam-nos a todos a rever os métodos,
a procurar, por todos os meios ao alcance, e a estudar o modo de fazer
chegar ao homem moderno a mensagem cristã, na qual somente ele
poderá encontrar a resposta às suas interrogações
e a força para a sua aplicação de solidariedade humana".(7)
E acrescentávamos na mesma altura que, para dar uma resposta válida
às exigências do Concílio que nos interpelam, é
absolutamente indispensável colocar-nos bem diante dos olhos um
patrimônio de fé que a Igreja tem o dever de preservar na
sua pureza intangível, ao mesmo tempo que o dever também
de o apresentar aos homens do nosso tempo, tanto quanto isso é
possível, de uma maneira compreensível e persuasiva.
Na
linha do Sínodo de 1974
4.
Esta fidelidade a uma mensagem da qual nós somos os servidores,
e às pessoas a quem nós a devemos transmitir intata e viva,
constitui o eixo central da evangelização, Ela levanta três
problemas candentes, que o Sínodo dos Bispos de 1974 teve constantemente
diante dos olhos: O que é que é feito, em nossos dias, daquela
energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente
a consciência dos homens? Até que ponto e como é que
essa força evangélica está em condições
de transformar verdadeiramente o homem deste nosso século? Quais
os métodos que hão de ser seguidos para proclamar o Evangelho
de modo a que a sua potência possa ser eficaz?
Tais
perguntas, no fundo, exprimem o problema fundamental que a Igreja hoje
põe a si mesma e que nós poderíamos equacionar assim:
Após o Concílio e graças ao Concílio, que
foi para ela uma hora de Deus nesta viragem da história, encontrar-se-á
a Igreja mais apta para anunciar o Evangelho e para o inserir no coração
dos homens, com convicção, liberdade de espírito
e eficácia? Sim ou não?
Convite
à reflexão
5.
Todos nós vemos a urgência em dar a esta pergunta uma resposta
leal, humilde, corajosa e, depois, de agir conseqüentemente.
Com
o nosso "cuidado solícito de todas as Igrejas", (8) nós
desejaríamos ajudar os nossos Irmãos e Filhos a responder
a tais interpelações. Oxalá que as nossas palavras,
que intentam ser uma reflexão sobre a evangelização,
a partir das riquezas do Sínodo, possam levar à mesma reflexão
todo o povo de Deus congregado na Igreja, e vir a ser um impulso novo
para todos, especialmente para aqueles "que se afadigam na pregação
e no ensino", (9) a fim de que cada um deles seja "um operário
que distribui retamente a Palavra da verdade" (10) e realize obra
de pregador do Evangelho e se desempenhe com perfeição do
próprio ministério.
Pareceu-nos
de capital importância uma Exortação deste gênero,
porque a apresentação da mensagem evangélica não
é para a Igreja uma contribuição facultativa: é
um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os
homens possam acreditar e ser salvos. Sim, esta mensagem é necessária;
ela é única e não poderia ser substituída.
Assim, ela não admite indiferença nem sincretismo, nem acomodação,
É a salvação dos homens que está em causa;
é a beleza da Revelação que ela representa; depois,
ela comporta uma sabedoria que não é deste mundo. Ela é
capaz, por si mesma, de suscitar a fé, uma fé que se apóia
na potência de Deus.(11) Enfim, ela é a Verdade. Por isso,
bem merece que o apóstolo lhe consagre todo o seu tempo, todas
as suas energias e lhe sacrifique, se for necessário, a sua própria
vida.
I.
DE CRISTO EVANGELIZADOR A UMA IGREJA EVANGELIZADORA
Testemunho
e missão de Jesus
6.
O testemunho que o Senhor dá de si mesmo e que São Lucas
recolheu no seu Evangelho, "Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino
de Deus",(12) tem, sem dúvida nenhuma, uma grande importância,
porque define, numa frase apenas, toda a missão de Jesus: "Para
isso é que fui enviado".(13) Estas palavras assumem o seu
significado pleno se se confrontam com os versículos anteriores,
nos quais Cristo tinha aplicado a si próprio as palavras do profeta
Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para evangelizar os pobres".(14)
Andar
de cidade em cidade a proclamar, sobretudo aos mais pobres, e muitas vezes
os mais bem dispostos para o acolher, o alegre anúncio da realização
das promessas e da aliança feitas por Deus, tal é a missão
para a qual Jesus declara ter sido enviado pelo Pai. E todos os aspectos
do seu mistério, a começar da própria encarnação,
passando pelos milagres, pela doutrina, pela convocação
dos discípulos e pela escolha e envio dos doze, pela cruz, até
a ressurreição e à permanência da sua presença
no meio dos seus, fazem parte da sua atividade evangelizadora.
Jesus,
o primeiro evangelizador
7.
No decorrer do Sínodo, muitas vezes os Bispos lembraram esta verdade:
o próprio Jesus, "Evangelho de Deus",(15) foi o primeiro
e o maior dos evangelizadores. Ele foi isso mesmo até o fim, até
a perfeição, até o sacrifício da sua vida
terrena.
Evangelizar:
Qual o significado que teve para Cristo este imperativo? Não é
fácil certamente exprimir, numa síntese completa, o sentido,
o conteúdo e os modos da evangelização, tal como
Jesus a concebia e a pôs em prática. De resto, uma tal síntese
jamais será uma coisa perfeitamente acabada. Aqui, bastar-nos-á
recordar alguns dos aspetos essenciais.
O
anúncio do reino de Deus
8.
Como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino
de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com
ele, tudo o mais passa a ser "o resto", que é "dado
por acréscimo". (16) Só o reino, por conseguinte, é
absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se
identifica com ele. O Senhor comprazer-se-ia em descrever, sob muitíssimas
formas diversas, a felicidade de fazer parte deste reino, felicidade paradoxal,
feita de coisas que o mundo aborrece; (17) as exigências do reino
e a sua carta magna; (18) os arautos do reino; (19) os seus mistérios;
(20) os seus filhos; (21) e a vigilância e a fidelidade que se exigem
daqueles que esperam o seu advento definitivo.(22)
O
anúncio da salvação libertadora
9.
Como núcleo e centro da sua Boa Nova, Cristo anuncia a salvação,
esse grande dom de Deus que é libertação de tudo
aquilo que oprime o homem, e que é libertação sobretudo
do pecado e do maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por ele
conhecido, de o ver e de se entregar a ele. Tudo isto começa durante
a vida do mesmo Cristo e é definitivamente alcançado pela
sua morte e ressurreição; mas deve ser prosseguido, pacientemente,
no decorrer da história, para vir a ser plenamente realizado no
dia da última vinda de Cristo, que ninguém, a não
ser o Pai, sabe quando se verificará. (23)
À
custa de um esforço de conversão
10.
Este reino e esta salvação, palavras-chave da evangelização
de Jesus Cristo, todos os homens os podem receber como graça e
misericórdia; e no entanto, cada um dos homens deve conquistá-los
pela força, os violentos apoderam-se dele, diz o Senhor, (24) pelo
trabalho e pelo sofrimento, por uma vida em conformidade com o Evangelho,
pela renúncia e pela cruz, enfim pelo espírito das bem-aventuranças.
Mas, antes de mais nada, cada um dos homens os conquistará mediante
uma total transformação do seu interior que o Evangelho
designa com a palavra "metanoia", uma conversão radical,
uma modificação profunda dos modos de ver e do coração.(25)
Pregação
infatigável
11.
Cristo realiza esta proclamação do reino de Deus por meio
da pregação infatigável de uma palavra da qual se
diria que não tem nenhuma outra igual em parte alguma: "Eis
uma doutrina nova, ensinada com autoridade!"; (26) "Todos testemunhavam
a seu respeito, e admiravam-se das palavras cheias de graça que
saíam de sua boca" (27); "Jamais alguém falou
como este homem".(28) As suas palavras desvendavam o segredo de Deus,
o seu desígnio e a sua promessa, e modificavam por isso mesmo o
coração dos homens e o seu destino.
Também
com sinais
12.
Mas ele realiza igualmente esta proclamação com sinais inumeráveis
que provocam a estupefação das multidões e, ao mesmo
tempo, as arrastam para junto dele, para o ver, para o escutar e para
se deixarem transformar por ele: enfermos curados, água transformada
em vinho, pão multiplicado e mortos que tornam à vida. Entre
todos os demais, há um sinal a que ele reconhece uma grande importância:
os pequeninos, os pobres são evangelizados, tornam-se seus discípulos,
reúnem-se "em seu nome" na grande comunidade daqueles
que acreditam nele. Efetivamente, aquele Jesus que declarava, "Eu
devo anunciar a Boa Nova do reino de Deus" (29), é o mesmo
Jesus do qual o evangelista São João dizia que ele tinha
vindo e devia morrer "para congregar na unidade todos os filhos de
Deus dispersos".(30) Assim aperfeiçoou ele a sua revelação,
completando-a e confirmando-a com toda a manifestação da
sua pessoa, com palavras e obras, com sinais e milagres, e sobretudo com
a sua morte e com a sua ressurreição e com o envio do Espírito
de verdade. (31)
Para
uma comunidade evangelizada e evangelizadora
13.
Aqueles que acolhem com sinceridade a Boa Nova, por virtude desse acolhimento
e da fé compartilhada, reúnem-se portanto em nome de Jesus
para conjuntamente buscarem o reino, para o edificar e para o viver. Eles
constituem uma comunidade também ela evangelizadora. A ordem dada
aos doze, "Ide, pregai a Boa Nova", continua a ser válida,
se bem que de maneira diferente, também para todos os cristãos.
É precisamente por isso que São Pedro chama a estes últimos
"povo de sua particular propriedade a fim de que proclameis as excelências
daquele que vos chamou"; (32) aquelas mesmas maravilhas que cada
um pode alguma vez escutar na sua própria língua.(33) A
Boa Nova do reino que vem e que já começou, de resto, é
para todos os homens de todos os tempos. Aqueles que a receberam, aqueles
que ela congrega na comunidade da salvação, podem e devem
comunicá-la e difundi-la ulteriormente.
Evangelização,
vocação própria da Igreja
14.
A Igreja sabe-o bem, ela tem consciência viva de que a palavra do
Salvador, "Eu devo anunciar a Boa Nova do reino de Deus", (34)
se lhe aplica com toda a verdade. Assim, ela acrescenta de bom grado com
São Paulo: "Anunciar o Evangelho não é título
de glória para mim; é, antes uma necessidade que se me impõe.
Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho".(35) Foi com alegria
e reconforto que nós ouvimos, no final da grande assembléia
de outubro de 1974, estas luminosas palavras: "Nós queremos
confirmar, uma vez mais ainda, que a tarefa de evangelizar todos os homens
constitui a missão essencial da Igreja";(36) tarefa e missão,
que as amplas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda
mais urgentes. Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação
própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para
evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça,
reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo
na santa missa, que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição.
Laços
recíprocos entre a Igreja e a evangelização
15.
Quem quer que releia no Novo Testamento as origens da Igreja e queira
acompanhar passo a passo a sua história e, enfim, a examine em
sua vida e ação, verá que ela se acha vinculada à
evangelização naquilo que ela tem de mais íntimo.
A
Igreja nasce da ação evangelizadora de Jesus e dos doze.
Ela é o fruto normal, querido, o mais imediato e o mais visível
dessa evangelização: "Ide, pois, ensinai todas as gentes".(37)
Ora "aqueles que acolheram a sua Palavra, fizeram-se batizar. E acrescentaram-se
a eles, naquele dia, cerca de três mil pessoas... E o Senhor acrescentava
cada dia ao seu número os que seriam salvos".(38)
Nascida
da missão, pois, a Igreja é por sua vez enviada por Jesus,
a Igreja fica no mundo quando o Senhor da glória volta para o Pai.
Ela fica aí como um sinal, a um tempo opaco e luminoso, de uma
nova presença de Jesus, sacramento da sua partida e da sua permanência,
Ela prolonga-o e continua-o. Ora, é exatamente toda a sua missão
e a sua condição de evangelizado, antes de mais nada, que
ela é chamada a continuar.(39) A comunidade dos cristãos,
realmente, nunca é algo fechado sobre si mesmo. Nela, a vida íntima,
vida de oração, ouvir a Palavra e o ensino dos apóstolos,
caridade fraterna vivida e fração do pão, (40) não
adquire todo o seu sentido senão quando ela se torna testemunho,
a provocar a admiração e a conversão e se desenvolve
na pregação e no anúncio da Boa Nova. Assim, é
a Igreja toda que recebe a missão de evangelizar, e a atividade
de cada um é importante para o todo.
Evangelizadora
como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Comunidade
de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade
de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela
deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento
novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado
pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar
as grandes obras de Deus,(41) que a converteram para o Senhor; precisa
sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é
o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada,
se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho.
O Concílio Ecumênico Vaticano II recordou e depois o Sínodo
de 1974 (42) retomou com vigor este mesmo tema: a Igreja que se evangeliza
por uma conversão e uma renovação constantes, a fim
de evangelizar o mundo com credibilidade.
A
Igreja é depositária da Boa Nova que há de ser anunciada.
As promessas da nova aliança em Jesus Cristo, os ensinamentos do
Senhor e dos apóstolos, a Palavra da vida, as fontes da graça
e da benignidade de Deus, o caminho da salvação, tudo isto
lhe foi confiado. É o conteúdo do Evangelho e, por conseguinte,
da evangelização, que ela guarda como um depósito
vivo e precioso, não para manter escondido, mas sim para o comunicar.
Enviada
e evangelizadora, a Igreja envia também ela própria evangelizadores.
É ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva, que
lhes explica a mensagem de que ela mesma é depositária,
que lhes confere o mandato que ela própria recebeu e que, enfim,
os envia a pregar. E a pregar, não as suas próprias pessoas
ou as suas idéias pessoais, (43) mas sim um Evangelho do qual nem
eles nem ela são senhores e proprietários absolutos, para
dele disporem a seu bel-prazer, mas de que são os ministros para
o transmitir com a máxima fidelidade.
A
Igreja inseparável de Cristo
16.
Existe, portanto, uma ligação profunda entre Cristo, a Igreja
e a evangelização. Durante este "tempo da Igreja"
é ela que tem a tarefa de evangelizar. E essa tarefa não
se realiza sem ela e, menos ainda, contra ela.
Convém
recordar aqui, de passagem, momentos em que acontece nós ouvirmos,
não sem mágoa, algumas pessoas, cremos bem intencionadas,
mas com certeza desorientadas no seu espírito, a repetir que pretendem
amar a Cristo mas sem a Igreja, ouvir a Cristo mas não à
Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja. O absurdo de uma semelhante
dicotomia aparece com nitidez nesta palavra do Evangelho: "Quem vos
rejeita é a mim que rejeita".(44) E como se poderia querer
amar Cristo sem amar a Igreja, uma vez que o mais belo testemunho dado
de Cristo é o que São Paulo exarou nestes termos: "Ele
amou a Igreja e entregou-se a si mesmo por ela"? (45)
II.
O QUE É EVANGELIZAR?
Complexidade
da ação evangelizadora
17.
Na ação evangelizadora da Igreja há certamente elementos
e aspectos que se devem lembrar. Alguns deles são de tal maneira
importantes que se verifica a tendência para os identificar simplesmente
com a evangelização. Pode-se assim definir a evangelização
em termos de anúncio de Cristo àqueles que o desconhecem,
de pregação, de catequese, de batismo e de outros sacramentos
que hão de ser conferidos.
Nenhuma
definição parcial e fragmentária, porém, chegará
a dar a razão da realidade rica, complexa e dinâmica que
é a evangelização, a não ser com o risco de
a empobrecer e até mesmo de a mutilar. E impossível captá-la
se não se procurar abranger com uma visão de conjunto todos
os seus elementos essenciais.
Tais
elementos, acentuados com insistência no decorrer do mencionado
Sínodo, são ainda agora aprofundados muitas vezes, sob a
influência do trabalho sinodal. E nós regozijamo-nos pelo
fato de eles se situarem, no fundo, na linha daqueles que o Concílio
Ecumênico Vaticano II nos proporcionou, sobretudo nas Constituições
Lumen Gentium e Gaudium et Spes e no Decreto Ad Gentes.
Renovação
da humanidade
18.
Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas
da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las
a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade: "Eis
que faço de novo todas as coisas". (46) No entanto não
haverá humanidade nova, se não houver em primeiro lugar
homens novos, pela novidade do batismo (47) e da vida segundo o Evangelho.(48)
A finalidade da evangelização, portanto, é precisamente
esta mudança interior; e se fosse necessário traduzir isso
em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando,
unicamente firmada na potência divina da mensagem que proclama,
(49) ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal
e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e
o meio concreto que lhes são próprios.
Estratos
da humanidade
19.
Estratos da humanidade que se transformam: para a Igreja não se
trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos
cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões
de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força
do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os
centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras
e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com
a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação,
Evangelização
das culturas
20.
Poder-se-ia exprimir tudo isto dizendo: importa evangelizar, não
de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de
maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes,
a civilização e as culturas do homem, no sentido pleno e
amplo que estes termos têm na Constituição Gaudium
et Spes, (50) a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo
para as relações das pessoas entre si e com Deus.
O
Evangelho, e conseqüentemente a evangelização, não
se identificam por certo com a cultura, e são independentes em
relação a todas as culturas. E no entanto, o reino que o
Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma
determinada cultura, e a edificação do reino não
pode deixar de servir-se de elementos da civilização e das
culturas humanas. O Evangelho e a evangelização independentes
em relação às culturas, não são necessariamente
incompatíveis com elas, mas suscetíveis de as impregnar
a todas sem se escravizar a nenhuma delas.
A
ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama
da nossa época, como o foi também de outras épocas.
Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa
evangelização da cultura, ou mais exatamente das culturas.
Estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa Nova. Mas um tal
encontro não virá a dar-se se a Boa Nova não for
proclamada.
Importância
primordial do testemunho da vida
21.
E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho.
Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio
da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão
e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais,
a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que
é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples
e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além
dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que
se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar.
Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos
fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver,
perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim?
Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem
é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco?
Pois
bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação
silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova. Nisso há já
um gesto inicial de evangelização. Daí as perguntas
que talvez sejam as primeiras que se põem muitos não-cristãos,
quer se trate de pessoas às quais Cristo nunca tinha sido anunciado,
ou de batizados não praticantes, ou de pessoas que vivem em cristandades
mas segundo princípios que não são nada cristãos.
Quer se trate, enfim, de pessoas em atitudes de procurar, não sem
sofrimento, alguma coisa ou Alguém que elas adivinham, sem conseguir
dar-lhe o verdadeiro nome. E outras perguntas surgirão, depois,
mais profundas e mais de molde a ditar um compromisso, provocadas pelo
testemunho aludido, que comporta presença, participação
e solidariedade e que é um elemento essencial, geralmente o primeiro
de todos, na evangelização.(51)
Todos
os cristãos são chamados a dar este testemunho e podem ser,
sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores. E aqui pensamos de modo
especial na responsabilidade que se origina para os migrantes nos países
que os recebem.
Necessidade
de um anúncio explícito
22.
Entretanto isto permanecerá sempre insuficiente, pois ainda o mais
belo testemunho virá a demonstrar-se impotente com o andar do tempo,
se ele não vier a ser esclarecido, justificado, aquilo que São
Pedro chamava dar "a razão da própria esperança",
(52) explicitado por um anúncio claro e inelutável do Senhor
Jesus. Por conseguinte, a Boa Nova proclamada pelo testemunho da vida
deverá, mais tarde ou mais cedo, ser proclamada pela palavra da
vida. Não haverá nunca evangelização verdadeira
se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério
de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados.
A
história da Igreja, a partir da pregação de Pedro
na manhã do Pentecostes amalgama-se e confunde-se com a história
de tal anúncio. Em cada nova fase da história humana, a
Igreja, constantemente estimulada pelo desejo de evangelizar, não
tem senão uma preocupação instigadora: Quem enviar
a anunciar o mistério de Jesus? Com que linguagem anunciar um tal
mistério? Como fazer para que ele ressoe e chegue a todos aqueles
que o hão de ouvir? Este anúncio, kerigma, pregação
ou catequese, ocupa um tal lugar na evangelização que, com
freqüência, se tornou sinônimo dela. No entanto, ele
não é senão um aspecto da evangelização.
Para
uma adesão viital numa comunidade eclesial
23.
O anúncio, de fato, não adquire toda a sua dimensão,
senão quando ele for ouvido, acolhido, assimilado e quando ele
houver feito brotar naquele que assim o tiver recebido uma adesão
do coração. Sim, adesão às verdades que o
Senhor, por misericórdia, revelou. Mais ainda, adesão ao
programa de vida, vida doravante transformada, que ele propõe;
adesão, numa palavra, ao reino, o que é o mesmo que dizer,
ao "mundo novo", ao novo estado de coisas, à nova maneira
de ser, de viver, de estar junto com os outros, que o Evangelho inaugura.
Uma tal adesão, que não pode permanecer abstrata e desencarnada,
manifesta-se concretamente por uma entrada visível numa comunidade
de fiéis.
Assim,
aqueles cuja vida se transformou ingressam, portanto, numa comunidade
que também ela própria é sinal da transformação
e sinal da novidade de vida: é a Igreja, sacramento visível
da salvação.(53) Mas, a entrada na comunidade eclesial,
por sua vez, há de exprimir-se através de muitos outros
sinais, que prolongam e desenvolvem o sinal da Igreja. No dinamismo da
evangelização, aquele que acolhe o Evangelho como Palavra
que salva, (54) normalmente, o traduz depois nestas atitudes sacramentais:
adesão à Igreja, aceitação dos sacramentos
que manifestam e sustentam essa adesão, pela graça que eles
conferem.
Causa
de um novo apostolado
24.
Finalmente, aquele que foi evangelizado, por sua vez, evangeliza. Está
nisso o teste de verdade, a pedra-de-toque da evangelização:
não se pode conceber uma pessoa que tenha acolhido a Palavra e
se tenha entregado ao reino sem se tornar alguém que testemunha
e, por seu turno, anuncia essa Palavra.
Ao
terminar estas considerações sobre o sentido da evangelização,
importa formular uma última observação, que consideramos
esclarecedora para as reflexões que se seguem.
A
evangelização, por tudo o que dissemos é uma diligência
complexa, em que há variados elementos: renovação
da humanidade, testemunho, anúncio explícito, adesão
do coração, entrada na comunidade, aceitação
dos sinais e iniciativas de apostolado.
Estes
elementos, na aparência, podem afigurar-se contrastantes. Na realidade,
porém, eles são complementares e reciprocamente enriquecedores
uns dos outros. É necessário encarar sempre cada um deles
na sua integração com os demais. Um dos méritos do
recente Sínodo foi precisamente o de nos ter repetido constantemente
o convite para congraçar estes mesmos elementos, em vez de os estar
a opor entre si, a fim de se ter a plena compreensão da atividade
evangelizadora da Igreja.
É
esta visão global que nós intentamos apresentar seguidamente,
examinando o conteúdo da evangelização, os meios
para evangelizar e precisando a quem se destina o anúncio evangélico
e a quem é que incumbe hoje esta tarefa de evangelizar.
III.
O CONTEÚDO DA EVANGELIZAÇÃO
Conteúdo
essencial e elementos secundários
25.
Na mensagem que a Igreja anuncia, há certamente muitos elementos
secundários. A sua apresentação depende, em larga
escala, das circunstâncias mutáveis. Também eles mudam.
Entretanto, permanece sempre o conteúdo essencial, a substância
viva, que não se poderia modificar nem deixar em silêncio
sem desnaturar gravemente a própria evangelização.
Testemunho
dado do amor do Pai
26.
Não é supérfluo, talvez, recordar o seguinte: evangelizar
é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta,
de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Dar testemunho
de que no seu Filho ele amou o mundo; de que no seu Verbo Encarnado ele
deu o ser a todas as coisas e chamou os homens para a vida eterna. Esta
atestação de Deus proporcionará, para muitos talvez,
o Deus desconhecido, (55) que eles adoram sem lhe dar um nome, ou que
eles procuram por força de um apelo secreto do coração
quando fazem a experiência da vacuidade de todos os ídolos.
Mas ela é plenamente evangelizadora, ao manifestar que para o homem,
o Criador já não é uma potência anônima
e longínqua: ele é Pai.
"Vede
que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós
o somos"; (56) e portanto, nós somos irmãos uns dos
outros em Deus.
No
centro da mensagem: a salvação em Jesus Cristo
27.
A evangelização há de conter também sempre,
ao mesmo tempo como base, centro e ápice do seu dinamismo, uma
proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito
homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida
a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do
mesmo Deus.(57)
E
não já uma salvação imanente ao mundo, limitada
às necessidades materiais ou mesmo espirituais, e que se exaurisse
no âmbito da existência temporal e se identificasse, em última
análise, com as aspirações, com as esperanças,
com as diligências e com os combates temporais; mas sim uma salvação
que ultrapassa todos estes limites, para vir a ter a sua plena realização
numa comunhão com o único Absoluto, que é o de Deus:
salvação transcendente e escatológica, que já
tem certamente o seu começo nesta vida, mas que terá realização
completa na eternidade.
Sob
o sinal da esperança
28.
Por conseguinte, a evangelização não pode deixar
de comportar o anúncio profético do além, vocação
profunda e deiinitiva do homem, ao mesmo tempo em continuidade e em descontinuidade
com a sua situação presente, para além do tempo e
da história, para além da realidade deste mundo cujo cenário
passa e das coisas deste mundo, de que um dia se manifestará uma
dimensão escondida; para além do próprio homem, cujo
destino verdadeiro não se limita à sua aparência temporal,
mas que virá também ele a ser revelado na vida futura.(58)
A evangelização contém, pois, também a pregação
da esperança nas promessas feitas por Deus na Nova Aliança
em Jesus Cristo: a pregação do amor de Deus para conosco
e do nosso amor a Deus, a pregação do amor fraterno para
com todos os homens, capacidade de doação e de perdão,
de renúncia e de ajuda aos irmãos, que promana do amor de
Deus e que é o núcleo do Evangelho; a pregação
do mistério do mal e da busca ativa do bem. Pregação,
igualmente, e esta sempre urgente, da busca do próprio Deus, através
da oração, principalmente de adoração e de
ação graças, assim como através da comunhão
com o sinal visível do encontro com Deus que é a Igreja
de Jesus Cristo.
Uma
tal comunhão exprime-se, por sua vez, mediante a realização
dos outros sinais de Cristo vivo e a agir na Igreja, quais são
os sacramentos. Viver desta maneira os sacramentos, de molde a fazer com
que a celebração dos mesmos atinja uma verdadeira plenitude,
não é de modo algum, como às vezes se pretende, colocar
um obstáculo ou aceitar um desvio da evangelização;
é antes proporcionar-lhe a sua integridade. Efetivamente, a totalidade
da evangelização para além da pregação
de uma mensagem, consiste em implantar a Igreja, a qual não existe
sem esta respiração, que é a vida sacramental a culminar
na Eucaristia. (59)
Mensagem
que interpela a vida toda
29.
Mas a evangelização não seria completa se ela não
tomasse em consideração a interpelação recíproca
que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social,
dos homens. E por isso que a evangelização comporta uma
mensagem explícita, adaptada às diversas situações
e continuamente atualizada: sobre os direitos e deveres de toda a pessoa
humana e sobre a vida familiar, sem a qual o desabrochamento pessoal quase
não é possível,(60) sobre a vida em comum na sociedade;
sobre a vida internacional, a paz, a justiça e o desenvolvimento;
uma mensagem sobremaneira vigorosa nos nossos dias, ainda, sobre a libertação.
Uma
mensagem de libertação
30.
São conhecidos os termos em que falaram de tudo isto, no recente
Sínodo, numerosos Bispos de todas as partes da terra, sobretudo
os do chamado "Terceiro Mundo", com uma acentuação
pastoral em que se repercutia a voz de milhões de filhos da Igreja
que formam esses povos, Povos comprometidos, como bem sabemos, com toda
a sua energia no esforço e na luta por superar tudo aquilo que
os condena a ficarem à margem da vida: carestias, doenças
crônicas e endêmicas, analfabetismo, pauperismo, injustiças
nas relações internacionais e especialmente nos intercâmbios
comerciais, situações de neo-colonialismo econômico
e cultural, por vezes tão cruel como o velho colonialismo político.
A Igreja, repetiram-no os Bispos, tem o dever de anunciar a libertação
de milhões de seres humanos, sendo muitos destes seus filhos espirituais;
o dever de ajudar uma tal libertação nos seus começos,
de dar testemunho em favor dela e de envidar esforços para que
ela chegue a ser total. Isso não é alheio à evangelização.
Necessária
ligação com a promoção humana
31.
Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento,
libertação, existem de fato laços profundos: laços
de ordem antropológica, dado que o homem que há de ser evangelizado
não é um ser abstrato, mas é sim um ser condicionado
pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de
ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano
da criação do plano da redenção, um e outro
a abrangerem as situações bem concretas da injustiça
que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada; laços
daquela ordem eminentemente evangélica, qual é a ordem da
caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem
promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso
do homem? Nós próprios tivemos o cuidado de salientar isto
mesmo, ao recordar que é impossível aceitar "que a
obra da evangelização possa ou deva negligenciar os problemas
extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, no que se refere
à justiça, à libertação, ao desenvolvimento
e à paz no mundo. Se isso porventura acontecesse, seria ignorar
a doutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre
ou se encontra em necessidade".(61)
Pois
bem: aquelas mesmas vozes que, com zelo, inteligência e coragem,
ventilaram este tema candente, no decorrer do referido Sínodo,
com grande alegria nossa forneceram os princípios iluminadores
para bem se captar o alcance e o sentido profundo da libertação,
conforme ela foi anunciada e realizada por Jesus de Nazaré e conforme
a Igreja a apregoa.
Sem
confusão nem ambigüidade
32.
Não devemos esconder, entretanto, que numerosos cristãos,
generosos e sensíveis perante os problemas dramáticos que
se apresentam quanto a este ponto da libertação, ao quererem
atuar o empenho da Igreja no esforço de libertação,
têm freqüentemente a tentação de reduzir a sua
missão às dimensões de um projeto simplesmente temporal;
os seus objetivos a uma visão antropocêntrica; a salvação,
de que ela é mensageira e sacramento, a um bem-estar material;
a sua atividade, a iniciativas de ordem política ou social esquecendo
todas as preocupações espirituais e religiosas. No entanto,
se fosse assim, a Igreja perderia o seu significado próprio. A
sua mensagem de libertação já não teria originalidade
alguma e ficaria prestes a ser monopolizada e manipulada por sistemas
ideológicos e por partidos políticos. Ela já não
teria autoridade para anunciar a libertação, como sendo
da parte de Deus. Foi por tudo isso que nós quisemos acentuar bem
na mesma alocução, quando da abertura da terceira Assembléia
Geral do Sínodo, "a necessidade de ser reafirmada claramente
a finalidade especificamente religiosa da evangelização.
Esta última perderia a sua razão de ser se se apartasse
do eixo religioso que a rege: o reino de Deus, antes de toda e qualquer
outra coisa, no seu sentido plenamente teológico".(62)
A
libertação evangélica
33.
Acerca da libertação que a evangelização anuncia
e se esforça por atuar, é necessário dizer antes
o seguinte: ela não pode ser limitada à simples e restrita
dimensão econômica, política, social e cultural; mas
deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões,
incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus; ela
anda portanto coligada a uma determinada concepção do homem,
a uma antropologia que ela jamais pode sacrificar às exigências
de uma estratégia qualquer, ou de uma "práxis"
ou, ainda, de uma efiicácia a curto prazo.
Libertação
baseada no reino de Deus
34.
Assim, ao pregar a libertação e ao associar-se àqueles
que operam e sofrem com o sentido de a favorecer, a Igreja não
admite circunscrever a sua missão apenas ao campo religioso, como
se se desinteressasse dos problemas temporais do homem; mas reafirmando
sempre o primado da sua vocação espiritual, ela recusa-se
a substituir o anúncio do reino pela proclamação
das libertações puramente humanas e afirma que a sua contribuição
para a libertação ficaria incompleta se ela negligenciasse
anunciar a salvação em Jesus Cristo.
Libertação
com uma visão evangélica do homem
35.
A Igreja relaciona, mas nunca identifica a libertação humana
com a salvação em Jesus Cristo, porque ela sabe por revelação,
por experiência histórica e por reflexão de fé
que nem todas as noções de libertação são
forçosamente coerentes e compatíveis com uma visão
evangélica do homem, das coisas e dos acontecimentos; e sabe que
não basta instaurar a libertação, criar o bem-estar
e impulsionar o desenvolvimento, para se poder dizer que o reino de Deus
chegou.
Mais
ainda: a Igreja tem a firme convicção de que toda a libertação
temporal, toda a libertação política, mesmo que ela
porventura se esforçasse por encontrar numa ou noutra página
do Antigo ou do Novo Testamento a própria justificação,
mesmo que ela reclamasse para os seus postulados ideológicos e
para as suas normas de ação a autoridade dos dados e das
conclusões teológicas e mesmo que ela pretendesse ser a
teologia para os dias de hoje, encerra em si mesma o gérmen da
sua própria negação e desvia-se do ideal que se propõe,
por isso mesmo que as suas motivações profundas não
são as da justiça na caridade, e porque o impulso que a
arrasta não tem dimensão verdadeiramente espiritual e a
sua última finalidade não é a salvação
e a beatitude em Deus.
Libertação
que comporta necessariamente uma conversão
36.
A Igreja tem certamente como algo importante e urgente que se construam
estruturas mais humanas, mais justas, mais respeitadoras dos direitos
da pessoa e menos opressivas e menos escravizadoras; mas ela continua
a estar consciente de que ainda as melhores estruturas, ou os sistemas
melhor idealizados depressa se tornam desumanos, se as tendências
inumanas do coração do homem não se acharem purificadas,
se não houver uma conversão do coração e do
modo de encarar as coisas naqueles que vivem em tais estruturas ou que
as comandam.
Libertação
que exclui a violência
37.
A Igreja não pode aceitar a violência, sobretudo a força
das armas, de que se perde o domínio, uma vez desencadeada, e a
morte de pessoas sem discriminação, como caminho para a
libertação; ela sabe, efetivamente, que a violência
provoca sempre a violência e gera irresistivelmente novas formas
de opressão e de escravização, não raro bem
mais pesadas do que aquelas que ela pretendia eliminar. Dizíamos
quando da nossa viagem à Colômbia: "Exortamo-vos a não
pôr a vossa confiança na violência, nem na revolução;
tal atitude é contrária ao espírito cristão
e pode também retardar, em vez de favorecer, a elevação
social pela qual legitimamente aspirais", (63) E ainda: "Nós
devemos reafirmar que a violência não é nem cristã
nem evangélica e que as mudanças bruscas ou violentas das
estruturas seriam falazes e ineficazes em si mesmas e, por certo, não
conformes à dignidade dos povos".(64)
Contribuição
específica da Igreja
38.
Dito isto, nós regozijamo-nos de que a Igreja tome uma consciência
cada dia mais viva do modo próprio, genuinamente evangélico,
que ela tem para colaborar na libertação dos homens. E o
que faz ela, então? Ela procura suscitar cada vez mais nos ânimos
de numerosos cristãos a generosidade para se dedicarem à
libertação dos outros. Ela dá a estes cristãos
"libertadores" uma inspiração de fé e uma
motivação de amor fraterno, uma doutrina social a que o
verdadeiro cristão não pode deixar de estar atento, mas
que deve tomar como base da própria prudência e da própria
experiência, a fim de a traduzir concretamente em categorias de
ação, de participação e de compromisso. Tudo
isto, sem se confundir com atitudes táticas nem com o serviço
de um sistema político, deve caraterizar a coragem do cristão
comprometido. A Igreja esforça-se por inserir sempre a luta cristã
em favor da libertação do desígnio global da salvação,
que ela própria anuncia.
O
que acabamos de recordar aqui emerge por mais de uma vez dos debates do
Sínodo. Nós próprios, aliás, também
quisemos dedicar a este mesmo tema algumas palavras de esclarecimento
na alocução que dirigimos aos Padres sinodais no final da
Assembléia.(65)
Todas
estas considerações deveriam contribuir, ao menos é
de esperar que assim suceda, para evitar a ambigüidade de que se
reveste freqüentemente a palavra "libertação",
nas ideologias, nos sistemas ou nos grupos políticos. A libertação
que a evangelização proclama e prepara é aquela mesma
que o próprio Jesus Cristo anunciou e proporcionou aos homens pelo
seu sacrifício.
A
liberdade religiosa
39.
Desta justa libertação, ligada à evangelização
e que visa alcançar o estabelecimento de estruturas que salvaguardem
as liberdades humanas, não pode ser separada a necessidade de garantir
todos os direitos fundamentais do homem, entre os quais a liberdade religiosa
ocupa um lugar de primária importância. Tivemos ocasião
de falar, ainda há pouco, da atualidade deste problema, pondo em
relevo que há "muitos cristãos, ainda hoje, que vivem
sufocados por uma opressão sistemática, pelo fato de serem
cristãos, pelo fato de serem católicos! O drama da fidelidade
a Cristo e da liberdade de religião, se bem que dissimulado por
declarações categóricas em favor dos direitos da
pessoa e das relações humanas em sociedade, é um
drama que continua!"(66)
IV.
AS VIAS DE EVANGELIZAÇÃO
A
busca de meios adaptados
40.
A evidente importância do conteúdo da evangelização
não deve esconder a importância das vias e dos meios da mesma
evangelização.
Este
problema do "como evangelizar" apresenta-se sempre atual, porque
as maneiras de o fazer variam em conformidade com as diversas circunstâncias
de tempo, de lugar e de cultura, e lançam, por isso mesmo, um desafio
em certo modo à nossa capacidade de descobrir e de adaptar.
A
nós especialmente, Pastores da Igreja, incumbe o cuidado de remodelar
com ousadia e com prudência e numa fidelidade total ao seu conteúdo,
os processos, tornando-os o mais possível adaptados e eficazes,
para comunicar a mensagem evangélica aos homens do nosso tempo.
Limitar-nos-emos, nesta reflexão, a recordar algumas vias que,
por um motivo ou por outro, se revestem de uma importância fundamental.
O
testemunho da vida
41.
E antes de mais nada, sem querermos estar a repetir tudo aquilo já
recordado anteriormente, é conveniente realçar isto; para
a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue
nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper,
e dedicada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro
meio de evangelização. "O homem contemporâneo
escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos
ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os
mestres, é porque eles são testemunhas".(67) São
Pedro exprimia isto mesmo muito bem, quando evocava o espetáculo
de uma vida pura e respeitável, "para que, se alguns não
obedecem à Palavra, venham a ser conquistados sem palavras, pelo
procedimento".(68) Será pois, pelo seu comportamento, pela
sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este
mundo; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus,
testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste
mundo; numa palavra, testemunho de santidade.
Uma
pregação viva
42.
Não será nunca demasiado acentuar, depois, o alcance e a
necessidade da pregação. "Como poderiam crer naquele
que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? ...Pois a
fé vem da pregação, e a pregação é
pela palavra de Cristo".(69) Esta lei, estabelecida outrora pelo
Apóstolo Paulo, conserva ainda hoje todo o seu vigor,
Sim:
a pregação, a proclamação verbal de uma mensagem,
permanece sempre como algo indispensável. Nós sabemos bem
que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes
cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos
também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos,
que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização
da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil, e estar
a viver, hoje em dia, na civilização da imagem. Estes fatos
deveriam levar-nos, como é óbvio, a pôr em prática
na transmissão da mensagem evangélica os meios modernos
criados por esta civilização. Já foram feitos, de
resto, esforços muito válidos neste sentido. Nós
não temos senão que louvar as iniciativas tomadas e encorajá-las
para que se desenvolvam ainda mais. O cansaço que hoje provocam
tantos discursos vazios, e a atualidade de muitas outras formas de comunicação
não devem no entanto diminuir a permanente validade da palavra,
nem levar a perder a confiança nela, A palavra continua a ser sempre
atual, sobretudo quando ela for portadora da força divina. (70)
É por este motivo que permanece também com atualidade o
axioma de São Paulo: "A fé vem da pregação",(71)
é a Palavra ouvida que leva a acreditar.
Liturgia
da Palavra
43.
Uma tal pregação evangelizadora poderá revestir-se
de numerosas formas que o zelo inspirará serem recriadas quase
até ao infinito. São inumeráveis, realmente, os acontecimentos
da vida e as situações humanas que proporcionam a ocasião
para um anúncio, discreto mas incisivo, daquilo que o Senhor tem
a dizer nessas circunstâncias. Basta ter uma verdadeira sensibilidade
espiritual para saber ler nos acontecimentos a mensagem de Deus. Depois,
numa altura em que a liturgia renovada pelo último Concílio
valorizou tanto a Liturgia da Palavra, seria um erro não ver na
homilia um instrumento valioso e muito adaptado para a evangelização.
É preciso, naturalmente, conhecer as exigências e tirar rendimento
das possibilidades da homilia, a fim de ela alcançar toda a sua
eficácia pastoral. E é sobretudo necessário estar-se
convencido e dedicar-se à mesma homilia com amor.
Esta
pregação, singularmente inserida na celebração
eucarística, da qual recebe força e vigor particulares,
tem certamente um papel especial na evangelização, na medida
em que ela exprime a fé profunda do ministro sagrado e em que ela
estiver impregnada de amor. Os fiéis congregados para formar uma
Igreja pascal, a celebrar a festa do Senhor presente no meio deles, esperam
muito desta pregação e dela poderão tirar fruto abundante,
contanto que ela seja simples, clara, direta, adaptada, profundamente
aderente ao ensinamento evangélico e fiel ao magistério
da Igreja, animada por um ardor apostólico equilibrado que lhe
advém do seu caráter próprio, cheia de esperança,
nutriente para a fé e geradora de paz e de unidade. Muitas comunidades
paroquiais ou de outro tipo vivem e consolidam-se graças à
homilia de cada domingo, quando ela tem as qualidades apontadas.
Acrescentamos
ainda que, graças à mesma renovação da liturgia,
a celebração eucarística não é o único
momento apropriado para a homilia. Esta tem o seu cabimento e não
deve ser descurada na celebração de todos os sacramentos,
como também no decorrer das paraliturgias, ou ainda por ocasião
de certas assembléias de fiéis. Ela será sempre uma
oportunidade privilegiada para comunicar a Palavra do Senhor.
A
catequese
44.
Uma via que não há de ser descurada na evangelização
é a do ensino catequético. A inteligência nomeadamente
a inteligência das crianças e a dos adolescentes, tem necessidade
de aprender, mediante um sistemático ensino religioso, os dados
fundamentais, o conteúdo vivo da verdade que Deus nos quis transmitir,
e que a Igreja procurou exprimir de maneira cada vez mais rica, no decurso
da sua história. Depois, que um semelhante ensino deva ser ministrado
para educar hábitos de vida religiosa e não para permanecer
apenas intelectual, ninguém o negará. E fora de dúvida
que o esforço de evangelização poderá tirar
um grande proveito deste meio do ensino catequético, feito na igreja,
ou nas escolas onde isso é possível, e sempre nos lares
cristãos; isso, porém, se os catequistas dispuserem de textos
apropriados e atualizados com prudência e com competência,
sob a autoridade dos Bispos. Os métodos, obviamente, hão
de ser adaptados à idade, à cultura e à capacidade
das pessoas, procurando sempre fazer com que elas retenham na memória,
na inteligência e no coração, aquelas verdades essenciais
que deverão depois impregnar toda a sua vida. Importa sobretudo
preparar bons catequistas, catequistas paroquiais, mestres e pais, que
se demonstrem cuidadosos em se aperfeiçoar constantemente nesta
arte superior, indispensável e exigente do ensino religioso, Além
disso, sem minimamente negligenciar, seja em que aspecto for, a formação
religiosa das crianças, verifica-se que as condições
do mundo atual tornam cada vez mais urgente o ensino catequético,
sob a forma de um catecumenato, para numerosos jovens e adultos que, tocados
pela graça, descobrem pouco a pouco o rosto de Cristo e experimentam
a necessidade de a ele se entregar.
Utilização
dos "mass media"
45.
No nosso século tão marcado pelos "mass media"
ou meios de comunicação social, o primeiro anúncio,
a catequese ou o aprofundamento ulterior da fé, não podem
deixar de se servir destes meios conforme já tivemos ocasião
de acentuar.
Postos
ao serviço do Evangelho, tais meios são susceptíveis
de ampliar, quase até ao infinito, o campo para poder ser ouvida
a Palavra de Deus e fazem com que a Boa Nova chegue a milhões de
pessoas. A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor,
se ela não lançasse mão destes meios potentes que
a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados.
É servindo-se deles que ela "proclama sobre os telhados",(72)
a mensagem de que é depositária. Neles encontra uma versão
moderna e eficaz do púlpito. Graças a eles consegue falar
às multidões.
Entretanto,
o uso dos meios de comunicação social para a evangelização
comporta uma exigência a ser atendida: é que a mensagem evangélica,
através deles, deverá chegar sim às multidões
de homens, mas com a capacidade de penetrar na consciência de cada
um desses homens, de se depositar nos corações de cada um
deles, como se cada um fosse de fato o único, com tudo aquilo que
tem de mais singular e pessoal, a atingir com tal mensagem e do qual obter
para esta uma adesão, um compromisso realmente pessoal.
Indispensáuel
contato pessoal
46.
E é por isto que, ao lado da proclamação geral para
todos do Evangelho, uma outra forma da sua transmissão, de pessoa
a pessoa, continua a ser válida e importante. O mesmo Senhor a
pôs em prática muitas vezes, por exemplo as conversas com
Nicodemos, com Zaqueu, com a Samaritana, com Simão, o fariseu,
e com outros, atestam-no bem, assim como os apóstolos. E vistas
bem as coisas, haveria uma outra forma melhor de transmitir o Evangelho,
para além da que consiste em comunicar a outrem a sua própria
experiência de fé? Importaria, pois, que a urgência
de anunciar a Boa Nova às multidões de homens, nunca fizesse
esquecer esta forma de anúncio, pela qual a consciência pessoal
de um homem é atingida, tocada por uma palavra realmente extraordinária
que ele recebe de outro. Nós não poderíamos dizer
nunca e enaltecer bastante todo o bem que fazem os sacerdotes que, através
do sacramento da Penitência ou através do diálogo
pastoral, se demonstram dispostos a orientar as pessoas pelas sendas do
Evangelho, a ajudá-las a firmarem-se nos seus esforços,
a auxiliá-las a reerguer-se se porventura caíram, enfim,
a assisti-las continuamente, com discernimento e com disponibilidade.
O
papel dos sacramentos
47.
Depois, nunca será demasiado insistir no fato de a evangelização
não se esgotar com a pregação ou com o ensino de
uma doutrina. A evangelização deve atingir a vida: a vida
natural, a que ela confere um sentido novo, graças às perspectivas
evangélicas que lhe abre; e a vida sobrenatural, que não
é a negação, mas sim a purificação
e a elevação da vida natural. Esta vida sobrenatural encontra
a expressão viva nos sete sacramentos e na admirável irradiação
de graça e de santidade de que eles são fonte.
A
evangelização exprime assim toda a sua riqueza, quando ela
realiza uma ligação o mais íntima possível,
e melhor ainda, uma intercomunicação que nunca se interrompe,
entre a Palavra e os sacramentos. Num certo sentido há um equívoco
em contrapor, como já algumas vezes se fez, a evangelização
à sacramentalização. É bem verdade que uma
certa maneira de administrar os sacramentos, sem um apoio sólido
na catequese destes mesmos sacramentos e numa catequese global, acabaria
por privá-los, em grande parte, da sua eficácia. O papel
da evangelização é precisamente o de educar de tal
modo para a fé, que esta depois leve cada um dos cristãos
a viver, e a não se limitar a receber passivamente, ou a suportar
os sacramentos como eles realmente são, verdadeiros sacramentos
da fé.
Religiosidade
popular
48.
Neste ponto, tocamos um aspeto da evangelização a que não
se pode ser indiferente. Queremos referir-nos àquela realidade
que com freqüência vai sendo designada nos nossos dias com
os termos religiosidade popular. É um fato que, tanto nas regiões
onde a Igreja se acha implantada de há séculos quanto nos
lugares onde ela se encontra em vias de implantação, subsistem
expressões particulares da busca de Deus e da fé. Encaradas
durante muito tempo como menos puras, algumas vezes desdenhadas, essas
expressões assim constituem hoje em dia, mais ou menos por toda
a parte, o objeto de uma redescoberta. Os Bispos aprofundaram o seu significado,
no decorrer do recente Sínodo, com um realismo e um zelo pastoral
que são de assinalar.
A
religiosidade popular, pode-se dizer, tem sem dúvida as suas limitações.
Ela acha-se freqüentemente aberta à penetração
de muitas deformações da religiáo, como sejam, por
exemplo, as superstições. Depois, ela permanece com freqüência
apenas a um nível de manifestações cultuais, sem
expressar ou determinar uma verdadeira adesão de fé. Ela
pode, ainda, levar à formação de seitas e pôr
em perigo a verdadeira comunidade eclesial.
Se
essa religiosidade popular, porém, for bem orientada, sobretudo
mediante uma pedagogia da evangelização, ela é algo
rico de valores. Assim ela traduz em si uma certa sede de Deus, que somente
os pobres e os simples podem experimentar; ela torna as pessoas capazes
para terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício
até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé;
ela comporta um apurado sentido dos atributos profundos de Deus: a paternidade,
a providência, a presença amorosa e constante, etc. Ela,
depois, suscita atitudes interiores que raramente se observam alhures
no mesmo grau: paciência, sentido da cruz na vida cotidiana, desapego,
aceitação dos outros, dedicação, devoção,
etc. Em virtude destes aspectos, nós chamamos-lhe de bom grado
"piedade popular", no sentido religião do povo, em vez
de religiosidade.
A
caridade pastoral há de ditar, a todos aqueles que o Senhor colocou
como chefes de comunidades eclesiais, as normas de procedimento em relação
a esta realidade, ao mesmo tempo tão rica e tão vulnerável.
Antes de mais, importa ser sensível em relação a
ela, saber aperceber-se das suas dimensões interiores e dos seus
inegáveis valores, estar-se disposto a ajudá-la a superar
os seus perigos de desvio. Bem orientada, esta religiosidade popular,
pode vir a ser cada vez mais, para as nossas massas populares, um verdadeiro
encontro com Deus em Jesus Cristo.
V.
OS DESTINATARIOS DA EVANGELIZAÇÃO
Destinação
universal
49.
As últimas palavras de Jesus no Evangelho de São Marcos
conferem à evangelização, de que o Senhor incumbe
os apóstolos, uma universalidade sem fronteiras: "Ide por
todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura".(73)
Os
doze e a primeira geração dos cristãos captaram bem
a lição deste texto e de outros semelhantes; e assim, fizeram
deles um programa de ação. A própria perseguição,
ao dispersar os apóstolos, contribuiu para a difusão da
Palavra e para que se implantasse a Igreja em muitas regiões, ainda
as mais longínquas. A admissão de Paulo nas fileiras dos
apóstolos e o seu carisma de pregador da vinda de Jesus Cristo
aos pagãos acentuou também essa mesma universalidade.
Apesar
de todos os obstáculos
50.
Ao longo de vinte séculos de história, as gerações
cristãs tiveram de enfrentar periodicamente diversos obstáculos
que se opuseram a esta missão universalista. Por um lado, a tentação
da parte dos mesmos evangelizadores, para restringir, sob variados pretextos,
o seu campo de atividade missionária. E por outro lado, a resistência
muitas vezes humanamente invencível da parte daqueles a quem se
dirige o evangelizador. E temos de verificar com mágoa que a obra
evangelizadora da Igreja tem sido contrastada, se não mesmo impedida,
pelos poderes públicos. Sucede, ainda nos nossos dias, que os anunciadores
da Palavra de Deus são privados dos seus direitos, perseguidos,
ameaçados e eliminados mesmo, só pelo fato de pregarem Jesus
Cristo e o seu Evangelho. No entanto, nós temos confiança
de que, apesar destas dolorosas provações, a obra desses
apóstolos finalmente não virá a faltar em qualquer
região do mundo.
A
despeito de tais adversidades, a Igreja reanima-se constantemente com
a sua inspiração mais profunda, aquela que lhe provém
diretamente do Senhor: por todo o mundo! A toda a criatura! Até
as extremidades da terra! Ela fez isso, ainda uma vez, no recente Sínodo,
como um apelo para não se deter o anúncio evangélico,
delimitando-o a um setor da humanidade, ou a uma classe de homens, ou,
ainda, a um só tipo de cultura. Alguns exemplos, quanto a este
ponto, poderão ser elucidativos.
Primeiro
anúncio aos que estão longe
51.
Dar a conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho àqueles que não
os conhecem, é precisamente, a partir da manhã do Pentecostes,
o programa fundamental que a Igreja assumiu como algo recebido do seu
Fundador. Todo o Novo Testamento, e duma maneira especial os Atos dos
Apóstolos, dão testemunho de um momento privilegiado e,
de algum modo, exemplar, desse esforço missionário, que
viria em seguida a assinalar toda a história da Igreja.
Esse
primeiro anúncio de Jesus Cristo efetua-o a Igreja por meio de
uma atividade complexa e diversificada, que algumas vezes se designa com
o nome de "pré-evangelização", mas que,
a bem dizer, já é evangelização, embora no
seu estádio inicial e ainda incompleto. Uma gama quase infinita
de meios, a começar da pregação explícita,
como é óbvio, mas passando também pela arte, pelos
contatos e interesse no campo científico e no campo das pesquisas
filosóficas, até ao recurso legítimo aos sentimentos
do coração do homem, podem ser postos em prática
para se alcançar tal objetivo.
Anúncio
ao mundo descristianizado
52.
Se é verdade que este primeiro anúncio se destina especialmente
àqueles que nunca ouviram a Boa Nova de Jesus e às crianças,
é verdade também que ele se demonstra cada dia mais necessário,
e isto por causa das situações de descristianização
freqüentes nos nossos dias, igualmente para multidões de homens
que receberam o batismo, mas vivem fora de toda a vida cristã,
para as pessoas simples que, tendo embora uma certa fé, conhecem
mal os fundamentos dessa mesma fé, para intelectuais que sentem
a falta de um conhecimento de Jesus Cristo sob uma luz diversa da dos
ensinamentos recebidos na sua infância, e para muitos outros ainda.
As
religiões não cristãs
53.
Um tal anúncio destina-se também a porções
imensas da humanidade que praticam religiões não cristãs
que a Igreja respeita e estima, porque elas são a expressão
viva da alma de vastos grupos humanos. Elas comportam em si mesmas o eco
de milênios de procura de Deus, procura incompleta, mas muitas vezes
efetuada com sinceridade e retidão de coração. Elas
possuem um patrimônio impressionante de textos profundamente religiosos;
ensinaram gerações de pessoas a orar; e, ainda, acham-se
permeadas de inumeráveis "sementes da Palavra"(74) e
podem constituir uma autêntica "preparação evangélica",
(75) para usarmos a palavra feliz do Concílio Ecumênico Vaticano
II, assumida, aliás, de Eusébio de Cesaréia.
Uma
situação assim levanta, certamente, problemas complexos
e delicados, que é conveniente estudar, à luz da tradição
cristã e do magistério da Igreja, de molde a poder proporcionar
aos missionários do presente e do futuro novos horizontes nos seus
contatos com as religiões não cristãs. Nós
queremos acentuar, sobretudo hoje, que nem o respeito e a estima para
com essas religiões, nem a complexidade dos problemas levantados
são para a Igreja motivo para ela calar, diante dos não-cristãos,
o anúncio de Jesus Cristo. Pelo contrário, ela pensa que
essas multidões têm o direito de conhecer as riquezas do
mistério de Cristo,(76) nas quais nós acreditamos que toda
a humanidade pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo
aquilo que ela procura às apalpadelas a respeito de Deus, do homem,
do seu destino, da vida e da morte e da verdade. Mesmo perante as expressões
religiosas naturais mais merecedoras de estima, a Igreja apóia-se
sobre o fato que a religião de Jesus, que ela anuncia através
da evangelização, põe o homem objetivamente em relação
com o plano de Deus, com a sua presença viva e com a sua ação;
ela leva-o, assim, a encontrar o mistério da paternidade divina
que se debruça sobre a humanidade; por outras palavras, a nossa
religião instaura efetivamente uma relação autêntica
e viva com Deus, que as outras religiões não conseguem estabelecer,
se bem que elas tenham, por assim dizer, os seus braços estendidos
para o céu.
É
por isso que a Igreja conserva bem vivo o seu espírito missionário
e deseja mesmo que ele se intensifique neste momento histórico
que nos foi dado viver. Ela sente-se responsável perante povos
inteiros. Ela não descansa enquanto não tiver feito o seu
melhor para proclamar a Boa Nova de Jesus Salvador. Ela prepara continuamente
novas gerações de apóstolos. E verificamos com alegria
tudo isto, numa altura em que não falta quem pense e mesmo quem
diga que o ardor e o espírito apostólico se esgotaram, e
que a época para enviar missionários já passou. O
Sínodo, em 1974, deu uma resposta a isso, ao dizer que o anúncio
missionário não se esgota e que a Igreja estará sempre
aplicada em atuar esse mesmo anúncio.
Sustentáculo
da fé dos fiéis
54.
Entretanto, a Igreja não se sente dispensada de prestar uma atenção
diligente, de igual modo, àqueles que receberam a fé e que,
muitas vezes passadas algumas gerações, voltam a ter contato
com o Evangelho. Ela procura desta maneira aprofundar, consolidar, alimentar
e tornar cada dia mais amadurecida a fé daqueles que se dizem já
fiéis ou crentes, afim de que o sejam cada vez mais.
Esta
fé, hoje confrontada com o secularismo, ou antes, podemos mesmo
dizer, com o ateísmo militante, é quase sempre uma fé
exposta a provações e ameaçada, e mais ainda, uma
fé assediada e combatida. Ela corre o risco de morrer de asfixia
ou de inanição, se ela não for alimentada e amparada
todos os dias. Evangelizar há de ser, muito freqüentemente,
comunicar à fé dos fiéis, em particular, mediante
uma catequese cheia de substância evangélica e servida por
uma linguagem adaptada ao tempo e às pessoas, esse alimento e esse
amparo de que ela precisa.
A
Igreja católica mantém igualmente uma viva solicitude em
relação aos cristãos que não estão
em plena comunhão com ela: se bem que se ache já empenhada
em preparar juntamente com eles a unidade querida por Cristo, e precisamente
em vista de realizar a unidade na verdade, ela tem a consciência
de que faltaria gravemente ao seu dever, se ela não desse testemunho,
também junto deles, da plenitude da revelação de
que ela conserva o depósito.
Não
crentes
55.
Significativa é também aquela preocupação,
que e teve presente no Sínodo e diz respeito a duas esferas muito
diferentes uma da outra e, no entanto, muito aproximadas por aquele desafio
que, cada uma a seu modo lança à evangelização.
A
primeira dessas esferas é aquilo que se pode chamar, o crescer
da incredulidade no mundo moderno. O mesmo Sínodo aplicou-se a
descrever este mundo moderno: sob tal nome genérico, quantas correntes
de pensamento, quantos valores e contravalores, quantas aspirações
latentes, quantos gérmens de destruição, quantas
convicções antigas que desaparecem e quantas outras convicções
novas que se impõem! Sob o ponto de vista espiritual, este mundo
moderno parece que continua a debater-se sempre com aquilo que um autor
dos nossoa dias chamava "o drama do humanismo ateu".(77)
Por
um lado, é-se obrigado a verificar no âmago deste mesmo mundo
contemporâneo o fenômeno que se torna quase a sua nota mais
surpreendente: o secularismo. Nós não falamos da secularização,
que é o esforço, em si mesmo justo e legítimo, e
não absolutamente incompatível com a fé ou com a
religião, para descobrir na criação, em cada coisa
ou em cada acontecimento do universo, as leis que os regem com uma certa
autonomia, com a convicção interior de que o Criador aí
pôs tais leis. Quanto a este ponto, o recente Concílio reafirmou
a autonomia legítima da cultura e particularmente das ciências.(78)
Aqui, temos em vista um verdadeiro secularismo: uma concepção
do mundo, segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem ser
necessário recorrer a Deus; de tal sorte que Deus se tornou supérfluo
e embaraçante. Um secularismo deste gênero, para reconhecer
o poder do homem, acaba por privar-se de Deus e mesmo por renegá-lo.
Daqui
parecem derivar novas formas de ateísmo: um ateísmo antropocêntrico,
que já não é abstrato e metafísico, mas sim
pragmático, programático e militante. Em conexão
com este secularismo ateu, propõem-se-nos todos os dias, sob as
formas mais diversas, uma civilização de consumo, o hedonismo
erigido em valor supremo, uma ambição de poder e de predomínio,
discriminações de todo o gênero, enfim, uma série
de coisas que são outras tantas tendências inumanas desse
"humanismo".
Por
outro lado e paradoxalmente, neste mesmo mundo moderno não se pode
negar a existência de verdadeiras pedras de junção
cristãs, valores cristãos pelo menos sob a forma de um vazio
ou de uma nostalgia. Não seria exagerar o falar-se de um potente
e trágico apelo para ser evangelizado.
Não
praticantes
56.
Uma segunda esfera é a dos não praticantes: hoje em dia
um bom número de batizados que, em larga medida, nunca renegaram
formalmente o próprio batismo mas que se acham totalmente à
margem do mesmo e que o não vivem. O fenômeno dos não
praticantes é muito antigo na história do cristianismo e
anda ligado a uma fraqueza natural, a uma incoerência profunda que
nós, por nosso mal, trazemos no fundo de nós próprios.
No entanto, nos tempos atuais, ele apresenta caraterísticas novas
e explica-se freqüentemente pelos desenraizamentos típicos
da nossa época. Ele nasce também do fato de os cristãos
hoje viverem lado a lado com os não-crentes e de receberem constantemente
o contra-choque da incredulidade. Além disso, os não praticantes
contemporâneos, mais do que os de outras épocas, procuram
explicar e justificar a própria posição em nome de
uma religião interior, da autonomia ou da autenticidade pessoal.
Ateus
e incrédulos por um lado, e não praticantes pelo outro,
opõem, assim, resistências à evangelização
que não são para menosprezar. Os primeiros, a resistência
de uma certa recusa, a incapacidade para aceitar a nova ordem das coisas,
o sentido novo do mundo, da vida, da história, que não é
possível se não se parte do Absoluto de Deus. Os segundos,
a resistência da inércia, a atitude um tanto hostil da parte
de alguns que se sentem de casa, que afirmam já saber tudo, já
haver experimentado tudo e já não acreditarem em nada.
Secularismo
ateu e ausência de prática religiosa encontram-se entre os
adultos e entre os jovens, nas elites e nas massas, em todos os setores
culturais, no seio das antigas e das jovens Igrejas. A ação
evangelizadora da Igreja, que não pode ignorar estes dois mundos
nem ficar parada diante deles, tem de procurar constantemente os meios
e a linguagem adequados para lhes propor a revelação de
Deus e a fé em Jesus Cristo.
No
coração das massas
57.
Como Cristo durante o tempo da sua pregação, como os doze
na manhã do Pentecostes, também a Igreja vê diante
dela uma imensa multidão humana que precisa do Evangelho e a ele
tem direito, uma vez que Deus "quer que todos se salvem e cheguem
ao conhecimento da verdade".(79)
Consciente
do seu dever de pregar a todos a salvação e sabendo que
a mensagem evangélica não é reservada a um pequeno
grupo de iniciados, de privilegiados ou de eleitos, mas destinada a todos,
a Igreja assume como sua própria a angústia de Cristo diante
das multidões errantes e prostradas "como ovelhas sem pastor"
e repete muitas vezes a sua mesma palavra: "Tenho compaixão
desta multidáo".(90) Mas a Igreja, entretanto, também
está consciente de que, para a eficácia da pregação
evangélica no coração das massas, ela deve dirigir
a sua mensagem a comunidades de fiéis cuja ação,
por sua vez, pode e deve ir atingir outros.
Comunidades
eclesiais de base
58.
O Sínodo ocupou-se largamente destas "pequenas comunidades"
ou "comunidades de base", dado que, na Igreja de hoje, elas
são freqüentemente mencionadas. O que vêm a ser tais
"comunidades" e por que é que elas hão de ser
destinatárias especiais da evangelização e ao mesmo
tempo evangelizadoras?
Florescentes
mais ou menos por toda a parte na Igreja, a ater-nos ao que sobre isso
se disse em vários testemunhos ouvidos durante as sessões
do último Sínodo, essas comunidades diferem bastante entre
si, mesmo dentro duma só região, e, mais ainda, de umas
regiões para outras.
Assim,
nalgumas regiões, elas brotam e desenvolvem-se, salvo algumas exceções,
no interior da Igreja, e são solidárias com a vida da mesma
Igreja e alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus
pastores. Nesses casos assim, elas nascem da necessidade de viver mais
intensamente ainda a vida da Igreja; ou então do desejo e da busca
de uma dimensão mais humana do que aquela que as comunidades eclesiais
mais amplas dificilmente poderão revestir, sobretudo nas grandes
metrópoles urbanas contemporâneas, onde é mais favorecida
a vida de massa e o anonimato ao mesmo tempo. Elas poderão muito
simplesmente prolongar, a seu modo, no plano espiritual e religioso o
culto, o aprofundamento da fé, a caridade fraterna, a oração,
comunhão com os Pastores e a pequena comunidade sociológica,
a aldeia, ou outras similares. Ou então elas intentarão
congregar para ouvir e meditar a Palavra, para os sacramentos e para o
vínculo da ágape, alguns grupos que a idade, a cultura,
o estado civil ou a situação social tornam mais ou menos
homogêneos, como por exemplo casais, jovens, profissionais e outros;
ou ainda, pessoas que a vida faz encontrarem-se já reunidas nas
lutas pela justiça, pela ajuda aos irmãos pobres, pela promoção
humana etc. Ou, finalmente, elas reúnem os cristãos naqueles
lugares em que a escassez de sacerdotes não favorece a vida ordinária
de uma comunidade paroquial. Tudo isto, porém, é suposto
no interior de comunidades constituídas da Igreja, sobretudo das
Igrejas particulares e das paróquias.
Noutras
regiões, ao contrário, agrupam-se comunidades de base com
um espírito de crítica acerba em relaçáo à
Igreja, que elas estigmatizam muito facilmente como "institucional"
e à qual elas se contrapõem como comunidades carismáticas,
libertas de estruturas e inspiradas somente no Evangelho. Estas têm,
portanto, como sua característica uma evidente atitude de censura
e de rejeição em relação às expressões
da Igreja, quais são a sua hierarquia e os seus sinais, Elas contestam
radicalmente esta Igreja. Nesta linha, a sua inspiração
principal bem depressa se torna ideológica e é raro que
elas não sejam muito em breve a presa de uma opção
política, de uma corrente e, depois, de um sistema, ou talvez mesmo
de um partido, com todos os riscos que isso acarreta de se tornarem instrumentos
dos mesmos.
A
diferença é já notável: as comunidades que
pelo seu espírito de contestação se separam da Igreja,
da qual prejudicam a unidade, podem muito bem denominar-se "comunidades
de base", mas em tais casos há nesta terminologia uma designação
puramente sociológica. Elas não poderiam, sem se dar um
abuso de linguagem, intitular-se comunidades eclesiais de base, mesmo
que elas, sendo hostis à hierarquia, porventura tivessem a pretensão
de perseverar na unidade da Igreja. Essa designação pertence
às outras, ou seja, àquelas que se reúnem em Igreja,
para se unir à Igreja e para fazer aumentar a Igreja.
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