“Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). Essa ordem está
num discurso de Moisés ao povo de Israel – discurso
que começa com a seguinte observação: “Estas
são as palavras que o SENHOR mandou a Moisés fazer
com os israelitas, na terra de Moab, além da aliança
que com eles tinha feito no monte Horeb” (Dt 28,69). Entre
outras coisas, Deus recorda ao povo que lhe havia feito uma proposta:
escolher entre “a vida e a morte, a bênção
e a maldição”. Como é o Deus da vida,
ordena que a escolha seja feita em favor dela. A ordem: “Escolhe,
pois, a vida” é o lema da Campanha da Fraternidade
deste ano.
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Pode
parecer curioso mandar alguém escolher a vida. Dito isso em forma
de pergunta: será que alguém seria capaz de escolher a morte
em lugar da vida? Por incrível que pareça, a resposta é
positiva. Aos que duvidarem disso, fica a sugestão para olharem
a seu redor: a cada momento, em muitos lugares, a vida humana é
ameaçada por escolhas contra ela. Ameaçada em seu início
por causa do aborto e ameaçada em sua consumação,
em vista da eutanásia. Entre esse início e esse fim, há
toda uma sorte de expressões de morte que já não
chamam mais a atenção de muitos – quando muito, servem
de matéria para as páginas policiais dos noticiários:
homicídios, suicídios, mutilações, tormentos
corporais ou mentais, tentativas para violentar as consciências,
situações de vida infra-humana, prisões arbitrárias,
prostituição, condições degradantes de trabalho...
Mesmo que quiséssemos fazer uma lista completa, não conseguiríamos,
tantas são as situações de morte em nosso cotidiano.
E, pior: seu número não pára de crescer. Tanto isso
é verdade que, como lembrava o saudoso Papa João Paulo II,
a própria consciência humana está ficando condicionada
por essa situação, a ponto de não mais perceber a
distinção entre o bem e o mal (cf. Evangelium vitae, 4).
A Igreja, que recebeu de seu Fundador o Evangelho da Vida, para divulgá-lo
por todo o mundo, não pode ficar indiferente ante essa situação.
Cabe-lhe assumir a defesa da vida – isto é, lutar contra
todas as ameaças a esse dom fundamental. É uma luta difícil
e, mesmo, inglória. Afinal, trata-se de ir contra a corrente, contra
toda uma mentalidade que se espalha e é fortalecida, quer pela
ação de grupos quer pela influência exercida pelos
poderosos meios de comunicação, mais preocupados com os
lucros do que com princípios e valores. Essa mentalidade, marcada
pelo individualismo e pelo relativismo, penetra tudo. Com isso, cai-se
naquilo que o então Cardeal Ratzinger chamava de “medíocre
pragmatismo” – isto é, procede-se com normalidade,
como se não houvesse outra opção a fazer, como se
fosse normal seguir uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos. Conseqüência:
“a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”
(Guadalajara, México, 1996).
“Escolhe, pois, a vida”. Trata-se de escolher Jesus Cristo
como centro de nossa vida, como ponto de partida para qualquer decisão.
Aceitá-lo significa não abraçar uma idéia,
um princípio ético, mas acolher sua Pessoa, “que dá
um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação
decisiva” (cf. Bento XVI, Deus caritas est, 1).
Ouvir os apelos da CF 2008 e escolher a vida significará, concretamente,
valorizar cada pessoa; fortalecer a família; fomentar a cultura
da vida; desenvolver nas pessoas a consciência crítica diante
das estruturas que geram a morte; propor e apoiar políticas públicas
que garantam a promoção e defesa da vida; crescer na fé,
vivida como amor a Deus e amor aos irmãos etc.
Como podemos ver, além de nos inquietar, essa Campanha da Fraternidade
coloca-nos diante de imensos desafios. Motive-nos e fortaleça-nos
nas horas de decisão a ordem do SENHOR: Escolhe a vida!
* Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, 64, é arcebispo de
Florianópolis (SC)
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