18/02/2008


Escolhe a vida! - Dom Murilo Krieger






“Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). Essa ordem está num discurso de Moisés ao povo de Israel – discurso que começa com a seguinte observação: “Estas são as palavras que o SENHOR mandou a Moisés fazer com os israelitas, na terra de Moab, além da aliança que com eles tinha feito no monte Horeb” (Dt 28,69). Entre outras coisas, Deus recorda ao povo que lhe havia feito uma proposta: escolher entre “a vida e a morte, a bênção e a maldição”. Como é o Deus da vida, ordena que a escolha seja feita em favor dela. A ordem: “Escolhe, pois, a vida” é o lema da Campanha da Fraternidade deste ano.

Pode parecer curioso mandar alguém escolher a vida. Dito isso em forma de pergunta: será que alguém seria capaz de escolher a morte em lugar da vida? Por incrível que pareça, a resposta é positiva. Aos que duvidarem disso, fica a sugestão para olharem a seu redor: a cada momento, em muitos lugares, a vida humana é ameaçada por escolhas contra ela. Ameaçada em seu início por causa do aborto e ameaçada em sua consumação, em vista da eutanásia. Entre esse início e esse fim, há toda uma sorte de expressões de morte que já não chamam mais a atenção de muitos – quando muito, servem de matéria para as páginas policiais dos noticiários: homicídios, suicídios, mutilações, tormentos corporais ou mentais, tentativas para violentar as consciências, situações de vida infra-humana, prisões arbitrárias, prostituição, condições degradantes de trabalho... Mesmo que quiséssemos fazer uma lista completa, não conseguiríamos, tantas são as situações de morte em nosso cotidiano. E, pior: seu número não pára de crescer. Tanto isso é verdade que, como lembrava o saudoso Papa João Paulo II, a própria consciência humana está ficando condicionada por essa situação, a ponto de não mais perceber a distinção entre o bem e o mal (cf. Evangelium vitae, 4).


A Igreja, que recebeu de seu Fundador o Evangelho da Vida, para divulgá-lo por todo o mundo, não pode ficar indiferente ante essa situação. Cabe-lhe assumir a defesa da vida – isto é, lutar contra todas as ameaças a esse dom fundamental. É uma luta difícil e, mesmo, inglória. Afinal, trata-se de ir contra a corrente, contra toda uma mentalidade que se espalha e é fortalecida, quer pela ação de grupos quer pela influência exercida pelos poderosos meios de comunicação, mais preocupados com os lucros do que com princípios e valores. Essa mentalidade, marcada pelo individualismo e pelo relativismo, penetra tudo. Com isso, cai-se naquilo que o então Cardeal Ratzinger chamava de “medíocre pragmatismo” – isto é, procede-se com normalidade, como se não houvesse outra opção a fazer, como se fosse normal seguir uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos. Conseqüência: “a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez” (Guadalajara, México, 1996).


“Escolhe, pois, a vida”. Trata-se de escolher Jesus Cristo como centro de nossa vida, como ponto de partida para qualquer decisão. Aceitá-lo significa não abraçar uma idéia, um princípio ético, mas acolher sua Pessoa, “que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (cf. Bento XVI, Deus caritas est, 1).


Ouvir os apelos da CF 2008 e escolher a vida significará, concretamente, valorizar cada pessoa; fortalecer a família; fomentar a cultura da vida; desenvolver nas pessoas a consciência crítica diante das estruturas que geram a morte; propor e apoiar políticas públicas que garantam a promoção e defesa da vida; crescer na fé, vivida como amor a Deus e amor aos irmãos etc.


Como podemos ver, além de nos inquietar, essa Campanha da Fraternidade coloca-nos diante de imensos desafios. Motive-nos e fortaleça-nos nas horas de decisão a ordem do SENHOR: Escolhe a vida!


* Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, 64, é arcebispo de Florianópolis (SC)


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