18/02/2008


Sair da terra - Dom José Alberto Moura*




Ir e vir são ações contínuas do ser humano. Indicam dinamismo e busca de algo realizador. Com esforço de procura crescente se atinge um ideal. Abraão, por chamado divino, saiu de sua terra para começar nova vida e realizar uma tarefa importante (conferir em Gn 12, 1-4). Tornou-se início da formação de um povo com missão especial. De sua estirpe nasceria o Salvador da humanidade. Seu ideal era o de cumprir a vontade de Deus. Sua obediência ao Criador tornou possível a formação do povo escolhido.

O ser humano tem vocação para tornar a caminhada existencial de sentido elevado. Cuidar da terra, produzir vida, ter convivência fraterna com promoção de justiça, defender o meio ambiente e trabalhar pela realização digna de todos mostram sua ação frutuosa. Ao contrário, o egoísmo leva a se produzir estrago e morte com as conseqüências danosas para todos. Uma vez implantados mecanismos de exclusões, o trabalho para a modificação desta realidade exige esforço redobrado de educação para o amor.

Jesus veio justamente nos provar, mesmo no caminho árduo de doação de cada um, a necessidade de se defender e promover a vida para que a realização de cada ser humano se torne possível. Sem oblação, não é possível tornar a convivência harmoniosa e feliz na terra. Hoje a vida é muito esmagada pela falta de solidariedade e movimentação para um crescimento realizador de cada ser humano. Mesmo as minorias detentoras de recursos que seriam para o bem de todos não se realizam em açambarcar tudo para si.

A boa saúde pessoal e social se concretiza tão somente quando se buscam valores além do bem estar material e aparente. A grandeza de caráter com humanismo é essencial para tornar realmente possível a felicidade do ser humano. Isto se dá de modo patente com o ideal apresentado por Deus. Ele nos apresenta o desafio de trabalharmos pelo bem do semelhante, mesmo às custas de nos sacrificarmos pela causa da justiça e da promoção de todos.

A dinâmica de sair da “terra” limitada do nosso eu envolve-nos em ir em busca de uma convivência apta a tornarmos nossa existência uma verdadeira comunidade. Nela se preserva a vida crescente de qualidade para todos. A superação do fechamento egoísta faz a pessoa de ideal elevado proteger a vida humana e da natureza. Todos temos o direito e o dever de sermos felizes.

Para isso somos impulsionados a pensar e agir em bem da vida que o Criador nos deu sem merecermos. Não somos os donos absolutos de nosso eu. Nem os pais são donos de seus filhos. Nossa dependência de quem nos deu a existência leva-nos a conduzir nossa caminhada na convivência promotora do bem do outro, a partir de quem é mais frágil e indefeso. A lei do domínio do mais forte precisa ser modificada. Caso contrário, esmagamos a vida dos outros, como acontece demais.

Nosso planeta é rico de possibilidades. Só usaremos seus benefícios de modo inteligente quando soubermos operar a chave do segredo da existência realizadora, escondida no coração de quem sabe perscrutar a presença do amor de Deus em si mesmo. Superamos o enfoque de querermos vida só para nós. Promoveremos a vida de todos.


*Dom José Alberto Moura, 64 anos, Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG), Presidente da Comissão Episcopal Pastoral (CEP) para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e primeiro Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic).


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