Com o solene canto do “Veni, creator Spiritus” (Vinde
Espírito criador”), teve início na tarde deste
sábado, o retiro dos bispos na 46ª Assembléia
da CNBB que se realiza em Itaici, Indaiatuba (SP) desde a última
quarta-feira, 2. O retiro é orientado pelo bispo da Prelazia
do Xingu (PA), dom Erwin Kräutler, um dos bispos ameaçados
de morte por causa de seu trabalho junto aos indígenas. “Preparei
as palestras vigiado por dois policiais”, disse, referindo-se
à proteção constante que lhe é oferecida
pelo governo por causa das ameaças.
|
|
Em sua primeira palestra, dom Erwin destacou a passagem em que o apóstolo
São Paulo afirma que a fé vem pela audição.
Recorrendo a diversas passagens bíblicas, dom Erwin mostrou como
significado de ouvir. “Na bíblia, além de atender e
entender, ouvir significa obedecer; escutar, aceitando a palavra de Deus,
a sua lei, as suas exigências”, recordou. “Só se
ouve bem com o coração”, disse parafraseando “O
Pequeno Príncipe”.
 |
Dom
Erwin recorreu, também, à cultura indígena
para expressar o significado de ouvir. “Ouvir, para o povo
Kayapó, tem a ver com fígado. O centro do ouvido é
o fígado. Só é bem ouvida a palavra que chega
ao fígado. Surda é a pessoa cujo canal até
o fígado está obstruído. Assim, os Kayapó
diriam: ‘Só se ouve bem com o fígado’”.
Dom
Erwin disse, também, que o silêncio é condição
indispensável para ouvir a voz de Deus. “Fugir, de
vez em quando, deste mundo louco é questão de vida,
de sobrevivência física e, muito mais ainda, de sobrevivência
espiritual”, acentuou. “Talvez seja esse ainda um privilégio
de que os bispos da Amazônia, pelo menos em suas viagens pastorais
pelo interior, podem desfrutar. É uma graça especial
passar uma noite no barco atracado em alguma árvore à
beira de um lago, pântano, igarapé ou rio da Amazônia,
bem longe de qualquer habitação humana, sem luz elétrica,
sem ouvir sons estridentes de alto-falantes, apenas ouvindo o concerto
dos sapos e sapinhos e os gritos das aves noturnas que jamais ferem
o silêncio”.
|
Segundo
dom Erwin, “Deus nos fala também pelo seu silêncio,
no sofrimento e na tristeza, na perseguição e nas ameaças
abertas e veladas, na noite escura do espírito do ‘Meu Deus,
meu Deus, por que me abandonastes?’”.
Outra
dimensão do ouvir, de acordo com dom Erwin, é “dar
ouvido ao clamor do povo, não tapar o ouvido diante do grito de
dor da humanidade”, disse citando a passagem do livro do Êxodo
em que Moisés é chamado a libertar o povo de Deus do Egito.
“Como Deus desce para libertar o povo da casa da escravidão,
a Igreja, o bispo, cada cristão, cada cristã desce e se
solidariza”, lembrou. “Ouvimos o grito dos povos indígenas
deste país, sempre de novo ameaçados em sua sobrevivência,
confinados num espaço insuficiente que os leva ao desespero do
suicídio, enfermos sem assistência, desprezados e maltratados”.
|