A Campanha da Fraternidade promovida anualmente pela Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta, em 2008, um tema
da máxima importância: Fraternidade e defesa da vida;
o lema é: Escolhe, pois, a vida (cf Dt 30,19). A vida é
um bem para todos e o seu desprezo é uma ameaça
para todos. Por isso mesmo, a promoção da dignidade
da vida e seu amparo em situações de risco requerem
a participação solidária de todos os membros
da comunidade humana. Defender a vida é questão
de justiça e fraternidade.
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A
vida, nas suas múltiplas formas e manifestações,
é o bem mais precioso da face da terra. Não fomos nós
que criamos a vida, mas podemos cuidar dela e também temos o tremendo
poder de destruí-la pelo descuido imprudente, ou pela agressão
direta. Muitas formas de interferência no ambiente e na natureza
trazem sérios riscos à sobrevivência de seres vivos,
vegetais e animais. A degradação ambiental, a destruição
do verde, a contaminação das águas e do ar desencadeiam
mecanismos que podem colocar em perigo a própria subsistência
da vida no nosso planeta. É o caso de perguntar: que tipo de mundo
e de futuro estamos preparando para as gerações que virão
depois de nós?!
Esta
Campanha da Fraternidade, porém, não tem seu foco principal
na ecologia, mas na vida humana, em relação à qual
as preocupações não são menores. A pobreza
extrema de amplas camadas da população e a falta de perspectivas
para uma solução eficaz para esse problema deixam a vida
humana exposta a situações de grave precariedade. A violência
endêmica e o crime organizado ceifam numerosas vidas, muitas delas,
lamentavelmente, em plena flor da juventude! Há poucas semanas,
corria a notícia que, nas últimas 3 décadas, houve
mais de um milhão de mortes violentas no Brasil. São dados
impressionantes para um país que não está em guerra
declarada contra ninguém. Submetida à lógica do mercado
e da vantagem econômica, ou abandonada à violência
cega ou calculada, a vida humana acaba valendo bem pouco.
Também
é impressionante o número de abortos realizados no Brasil
todos os anos. Trata-se de seres humanos inocentes e indefesos, rejeitados
e excluídos do banquete da vida. Sendo silenciosas e invisíveis,
essas mortes violentas nem mesmo constam nas estatísticas oficiais.
Como enfrentar esse problema? A questão do aborto não deve
ser imediatamente ligada a posições de fé religiosa
ou a embates ideológicos, pois envolve o mais elementar direito
humano, que vale para não-crentes e para crentes em Deus, da mesma
forma: o direito à vida.
E
por complicações decorrentes de abortos clandestinos mal-feitos,
lamentavelmente, muitas mulheres também acabam perdendo a vida.
Legalizar o aborto seria a solução para salvar a vida dessas
mulheres? É o que alguns pretendem. Mas essa solução
seria cruel e imoral, pois ambas as vidas são preciosas. Valorizar
e preservar a vida da mãe e do filho, não seria esta a política
pública mais urgente e adequada? Evidentemente, a solução
também passa pela educação, para que as pessoas sejam
devidamente respeitadas; a prevenção para evitar a disseminação
de doenças é necessária; mas será incompleta,
se não for acompanhada também pela educação
moral, para comportamentos sexuais respeitosos e responsáveis,
quer em relação à pessoa diretamente envolvida e
à sociedade, quer em relação ao novo ser humano que
pode resultar de uma relação sexual.
Ameaça
não menos preocupante para a vida humana é a eutanásia,
que se caracteriza como uma intervenção intencional e direta
para suprimir a vida humana. O ser humano, desde o início da história,
sempre teve a tentação de se tornar senhor absoluto da vida
e da morte. Mas é fundamental que as lições da história
sejam aprendidas; onde o Estado abdica do seu papel de tutelar a vida
dos cidadãos, especialmente dos mais frágeis e indefesos,
a lei da selva passa a imperar. E onde se concede ao Estado, ou ao próprio
cidadão, um poder de vida e de morte sobre as pessoas, a violência
e a tirania acabam bem depressa com as conquistas da civilização.
Proteger,
defender e promover a vida humana é tarefa primordial do Estado;
sobretudo, a vida indefesa e frágil, como a dos seres humanos ainda
não-nascidos, das crianças, idosos, pobres, doentes ou pessoas
com deficiência. É ação política por
excelência, que não deverá ser orientada apenas pelo
interesse de grupos, mas requer o envolvimento solidário de todos
os cidadãos e organizações da sociedade. A defesa
da vida e da dignidade dos outros seres humanos contra toda forma de agressão,
prepotência ou aviltamento interessa a toda a família humana;
é manifestação suprema de fraternidade.
“Escolhe,
pois, a vida” – é o lema tomado do livro do Deuteronômio,
na Bíblia. O povo hebreu, libertado da escravidão do Egito
mediante a intervenção prodigiosa de Deus, é colocado
por Moisés diante da grave alternativa: escolher a vida e um futuro
esperançoso para si e seus descendentes, permanecendo fiel aos
mandamentos de Deus, ou escolher a morte, andando por outros caminhos
e servindo a “deuses” fabricados por mão humana. A
Campanha da Fraternidade lembra que esta mesma escolha fundamental também
precisa ser feita hoje por nós: a vida, optando por aquilo que
contribui para a sua defesa e dignidade, ou a morte, optando por caminhos
que descuidam e destroem a vida. Nossas escolhas têm conseqüências
e nos responsabilizam eticamente, enquanto seres racionais e dotados de
vontade livre.
Esta
é a grande questão posta pela Campanha da Fraternidade de
2008. Das nossas escolhas depende a vida humana e o futuro da vida na
Terra, nossa casa comum. Esta decisão envolve a solidariedade e
a fraternidade de toda a comunidade humana.
*Dom Odilo P. Scherer, 58, arcebispo de São Paulo (SP)
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