Elementos da Pastoral Litúrgica
27ª
Assembléia Geral
Itaici,
SP, 5 a 14 de abril de 1989
INTRODUÇÃO
1. Este texto é conseqüência da pesquisa feita pela
Linha 4, Dimensão Litúrgica da CNBB, quando se completaram
20 anos da promulgação da Sacrosanctum Concilium em 1983.
O resultado colhido sobre a caminhada da reforma e renovação
litúrgicas pós-conciliares, foi devolvido às bases
através do livro Estudos da CNBB, nº 42: Liturgia, 20 anos
de caminhada pós-conciliar.
2. Tendo a CNBB dedicado esforços especiais às diversas
dimensões da vida da Igreja, urge refletir, agora e de modo bem
abrangente, sobre a dimensão celebrativa, que tem aspecto profético
e transformador e é a alma de todas as outras1.
Para unir a dimensão celebrativa à dimensão profética
e transformadora, o fundamental é prover de modo positivo e permanente,
a formação de todos os agentes de pastoral, começando
pelos mais responsáveis pela vida litúrgica nas diversas
igrejas.
3. Não pretendemos aqui apresentar um Manual de liturgia nem um
Diretório dos Sacramentos, mas Elementos de Pastoral Litúrgica.
Desejamos contribuir para promover e animar a Pastoral Litúrgica
na formação dos agentes de Pastoral, para dinamizar as celebrações,
para a constituição de suas equipes e para impulsionar a
adaptação litúrgica conforme os apelos do Espírito
na Igreja.
4. Este trabalho contém duas partes:
Na
1ª parte refletimos sobre a caminhada litúrgica pós-conciliar,
a natureza da liturgia, sua linguagem e suas múltiplas expressões,
a importância da espiritualidade litúrgica e a urgência,
tanto da aculturação e inculturação como da
formação para a necessária adaptação
e criatividade. Esta parte termina com algumas orientações
pastorais sobre a liturgia em geral.
Já
na 2ª, mais prática, são apresentadas orientações
pastorais sobre a Celebração Eucarística.
I
- A VIDA LITÚRGICA
A.
A CAMINHADA LITÚRGICA PÓS-CONCILIAR E SEUS ATUAIS DESAFIOS
5. Apresentamos inicialmente uma visão geral da caminhada litúrgica
no Brasil a partir do Concílio Vaticano II, realçando dois
aspectos: uma visão de conjunto das três décadas e
os desafios atuais.
1. Visão de conjunto das três décadas
6. Quem lembra como era celebrar a Liturgia há 25 anos e pensa
como se apresenta hoje, percebe uma transformação imensa,
realizada gradativamente. Há, nesse processo, características
significativas em cada uma das três décadas passadas.
1.1. Os anos 60
7. Um grande entusiasmo marcou a acolhida da Sacrosanctum Concilium. O
uso do vernáculo modificou profundamente o estilo das celebrações.
No altar, o sacerdote voltado para o povo, pôs a presidência
face a face com o povo, criando novo espaço e nova comunicação
na assembléia litúrgica. Aboliu-se de imediato a duplicação
que se havia introduzido na celebração da missa, com textos
proclamados em latim e repetidos em vernáculo. Os ritos foram simplificados
e tornados mais claros para facilitar a compreensão e a participação
do povo. O canto das partes do Comum da missa, em vernáculo, e
sobretudo a possibilidade de cantar os textos da missa em ritmo popular,
também deram nova vida à celebração.
8. Multiplicaram-se os cursos de Liturgia, onde se insistiu na necessidade
da participação ativa dos fiéis e do exercício
das diversas funções, como o comentarista, os leitores,
o animador e os grupos de canto. Aos poucos foram sendo introduzidos,
também, novos instrumentos musicais.
9. Além disso, foram-se realizando Encontros Nacionais e Regionais
de Liturgia. Surgiram obras nossas e outras traduzidas. A reflexão
e a prática litúrgicas tornaram-se vivas nos vários
cursos do ISPAL (Instituto Superior de Pastoral Litúrgica), que
prestaram inestimável serviço à renovação
litúrgica no Brasil.
10. Neste período aparecem também algumas dificuldades.
A lentidão e a demora da reforma e renovação oficiais
ensejou a alguns interpretar e aplicar o documento conciliar de maneira
autônoma e, por vezes, arbitrária. As iniciativas, tomadas
nem sempre de acordo com os critérios emanados do Concílio,
exageraram, sobretudo, o descaso pelo aspecto jurídico do culto
que, sendo comunitário, dele também necessita. Por isso,
avançaram o sinal de tal modo que não foi fácil retroceder
quando necessário.
11. Por outro lado, a descoberta do sentido e do valor da Liturgia como
cume e fonte da vida da Igreja fez com que se abandonassem com certo desprezo
outras formas de culto como os exercícios de piedade e as devoções
populares1. Não se conseguiu ainda preencher o vazio deixado pelo
seu abandono.
1.2. Os anos 70
12. Três principais aspectos caracterizam este período: A
introdução dos novos livros litúrgicos, os Documentos
pastorais e a abertura da Igreja para a dimensão social de sua
vida e, conseqüentemente, de sua Liturgia2.
13. Os livros foram apenas traduzidos e não adaptados. A Liturgia
das Horas teve de se contentar com a tradução da "Oração
do Tempo Presente", editada na França. Infelizmente os documentos
litúrgico-pastorais da CNBB, bem como as Introduções
teológico-pastorais aos novos Rituais, apesar de seu grande valor,
não tiveram a esperada influência na caminhada de nossa vida
litúrgica.
14. A realidade sofrida do povo fez a Igreja crescer na consciência
de sua dimensão profética e evangelizadora. De fato, em
Medellín (1968) os Bispos latino-americanos, apontavam os rumos
da promoção social. Já em 1974, o Sínodo dos
Bispos testemunha que a Igreja toda caminhava nessa direção,
esplendidamente exposta na Evangelii Nuntiandi, que a Conferência
Latino-americana em Puebla buscou aplicar à nossa realidade3.
15. Enquanto as atenções da Igreja se concentravam nos grupos
marginalizados, nas grandes massas empobrecidas e oprimidas e desejosas
de libertação integral, germinavam as sementes de uma nova
expressão litúrgica ligada à vida.
16. Sobretudo nas CEBs, sob a influência crescente da Teologia da
Libertação, a nova reflexão sobre a Cristologia e
Eclesiologia na América Latina inova maneiras de celebrar a Fé.
17. Nesse contexto aparecem elementos positivos e negativos da caminhada
litúrgica.
Foi
positivo o novo modo de celebrar os sacramentos. A Penitência, por
exemplo, se enriqueceu com as celebrações comunitárias,
segundo o novo Ritual. E a Unção dos Enfermos tomou outras
dimensões, mais na linha da Pastoral da Saúde.
18. A "Oração do Tempo Presente" levou o clero,
as comunidades religiosas e não poucos cristãos leigos a
redescobrir o valor e as riquezas da oração comunitária
da Igreja.
19. A valorização dos ministérios na assembléia
litúrgica estimula o aparecimento de novos ministérios na
pastoral. E a mulher consegue lugar de destaque na Liturgia mais participada.
Enfim, tem início a valorização da religiosidade
popular em suas diversas formas e expressões.
20. Há, porém, elementos negativos nessa década.
Com a deficiente formação litúrgica nos seminários
e a insuficiente reciclagem oferecida ao clero, os padres, em geral, ficaram
privados da espiritualidade litúrgica, ao mesmo tempo em que, no
culto, infiltrava-se descabido desprezo pelas rubricas indispensáveis
e novo rubricismo, na execução material dos ritos e no uso
servil dos folhetos. Sensível foi nesse período como diminuiu
a participação na confissão auricular. O exercício
da celebração penitencial, com absolvição
geral, não bem orientado, fez diminuir a participação
na confissão auricular, privando o povo das riquezas desta forma
de penitência sacramental.
21. Aqui e ali reduziu-se a celebração a mero meio de mentalização
ideológica. E em que pese a benéfica integração
da religiosidade do povo, parece, às vezes, que se alimenta a possibilidade
de outra Liturgia, a "popular", em oposição à
oficial.
1.3. Os anos 80 e a situação atual
22. Três fatos marcam esta década: a pesquisa sobre a situação
da vida litúrgica no Brasil (1983), a ampla avaliação
das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da CNBB (1987) e
o estudo provocado pelo instrumento de trabalho "Por um novo impulso
à vida litúrgica" (1988).
23. Deles se depreendem certos dados importantes: junto com um certo cansaço
no campo da Liturgia cresce uma busca de soluções em nível
mais profundo.
24. Persistem falhas já apontadas, como deficiente formação
litúrgica dos agentes em todos os níveis, com uma defasagem
agravante entre leigos que estudam e um clero pouco interessado.
25. Descobriu-se toda a amplidão de um dado relativamente novo:
Cerca de 70% das celebrações, no Dia do Senhor, são
realizadas por comunidades que vivem e celebram sua fé sem a presidência
de um ministro ordenado.
26. Nem todas as deficiências que vêm à tona no culto
são falhas da dimensão litúrgica: muitas devem ser
atribuídas à falta de evangelização, à
catequese incompleta e à ausência de vida comunitária.
27. É promissor o fato de uma pastoral litúrgica mais integrada
na pastoral orgânica, como se verifica na presença, em cada
Regional, de um bispo responsável pela Liturgia, suscitando equipes
animadoras desta pastoral em vários níveis. Abrem-se assim
perspectivas para a difícil tarefa de fazer confluir numa Liturgia
viva as riquezas da tradição romana, da religiosidade popular,
da oração comprometida com a transformação
do mundo e a oração de louvor cada vez mais difundida, sobretudo
nas grandes cidades nos grupos de oração4.
2. Desafios
28. Na situação atual da vida litúrgica surgem alguns
desafios mais urgentes:
—
Participação: o Concílio preconiza a participação
ativa, consciente e frutuosa5. Como promovê-la sempre mais? Até
que ponto os meios atuais, como folhetos, cantos, símbolos, concorrem
ou impedem essa participação?
29. — Criatividade e adaptação: a participação
reclama criatividade e adaptação. Como ampliar as oportunidades
existentes na Liturgia, para isso?
30. Civilização urbano-industrial: a maioria do nosso povo
vive na cidade secularizada e massificada pelos Meios de Comunicação
Social. Que símbolos, gestos e sinais serão realmente significativos
dentro deste novo contexto?
31. A Palavra de Deus: A Palavra de Deus é sempre eficaz e transformadora
(cf. Is 55,10-11; Hb 4,12). O que falta para que as assembléias
litúrgicas levem a maior compromisso de fé e melhor ligação
entre fé, Palavra e vida?
32. O Ano Litúrgico: como superar o paralelismo entre as celebrações
do Ano Litúrgico e os dias, semanas e meses temáticos (Mês
da Bíblia, Dia das Missões, Mês Vocacional)?
33. A Piedade Popular: como redescobrir a riqueza da religiosidade popular
e integrá-la na Liturgia?
34. A Aculturação e Inculturação: como concretamente
levar adiante o processo de aculturação e de inculturação
desejado pelo Concílio, para que se chegue a uma expressão
litúrgica sempre mais de acordo com a índole do povo brasileiro
constituído de tantas etnias?
35. Todos estes desafios deixam claro quanto e como é necessário
desencadear um processo de formação litúrgica sistemática
e permanente. Formação que se baseia na compreensão
teológica da Liturgia e faça superar tanto o néo-rubricismo
quanto a improvisação arbitrária.
B.
LITURGIA: CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO DA SALVAÇÃO
1. A Celebração
36. Em todos os tempos e lugares, homens e mulheres de todos os meios
e níveis sociais, de todas as culturas e religiões, costumam
realçar, ao longo da existência, aspectos fundamentais da
vida individual, familiar, social e religiosa.
37. Celebrar é parte integrante da vida humana, que é tecida
de trabalhos e de festas, de horas gastas na construção
e espaços destinados a usufruir de seus resultados.
38. A celebração nos leva a descortinar a grandeza de nosso
ser e de nosso destino de imagens de Deus, grandeza que corremos o perigo
de esquecer nas lutas pela vida, nas frustrações da existência.
A celebração nos abre espaço para vivermos em comunhão
que é o anseio profundo de nosso ser social. E completamos com
nossa fantasia o que a dura realidade cerceia em nossa vocação
para a plenitude e para a auto-realização.
39. Sendo um momento em que se evoca o fato passado para revivê-lo
intensamente no nosso hoje, a celebração ocupa, na Religião,
um lugar privilegiado: porque põe homens e mulheres em comunhão
entre si e com Deus através de símbolos ou sinais. No cristianismo,
a celebração consiste na memória do acontecimento
fundante do Povo de Deus, isto é, a morte e ressurreição
do Senhor, que perpetua na História a salvação que
Cristo veio trazer a todos.
40. Em nossas celebrações religiosas há muitos objetos,
gestos e atitudes especiais de pessoas: altar, cruz, livros, luzes, toalhas,
palavras, mãos postas, mãos estendidas, sinal da cruz, genuflexão,
procissões… Eles entram na Liturgia como símbolos
ou sinais significativos.
41. Símbolos chamamos os objetos ou gestos que contêm e expressam,
de forma analógica, a realidade evocada, que então aparece
de outra maneira. Lavar as mãos na missa, por exemplo, é
hoje, símbolo do esforço de purificação interior.
Mostra uma pureza que deve existir, aqui e agora no interior de quem participa
de tal gesto. Todos os sinais empregados na liturgia são simbólicos.
42. A celebração litúrgica, estruturada em símbolos
e sinais, corresponde perfeitamente à psicologia do homem e da
mulher, sobretudo dos mais simples, que preferem manifestar seus sentimentos
por atitudes, gestos, objetos: uma visita, um abraço, um presente.
43. De modo especial, nós latino-americanos, preferimos reforçar
assim a exuberância de nossos sentimentos. Por essa razão,
nossa Liturgia deve abrir espaços para as expressões de
nosso povo. Assim nossas celebrações conseguem a participação
de todas as pessoas e da pessoa toda, envolvendo também seus corpos
e a maneira característica de alimentar e exprimir seus sentimentos.
2. Celebração do mistério da salvação
44. O projeto de comunhão de Deus conosco, que chamamos de obra
da salvação, foi prenunciado pelo próprio Deus no
Antigo Testamento e realizado em Cristo. Hoje a Liturgia o celebra, isto
é, o rememora e o torna presente na Igreja.
45. De fato, Israel foi o povo convocado pelo Senhor em assembléia
para o culto do "Deus único dos pais", que se revelou
como Senhor: um Deus para nós, portanto, vivo e atuante na História.
Marcou profundamente Israel a libertação exaltada no Êxodo,
que junto com a criação, a eleição e a aliança
são os motivos do culto do Povo ao Senhor.
46. Libertando Israel da escravidão para ser seu povo, ou seja,
povo sacerdotal, real e profético, o Senhor enseja aos profetas
a releitura destes acontecimentos como encaminhamento da humanidade para
a nova Aliança: nesta aliança nova, o culto crescerá
em intensidade, em compromisso e justiça com os irmãos e
abertura para a universalidade, até que um dia Jesus o proclame
como adoração em espírito e verdade (cf. Jo 4,23).
47. Em Jesus Cristo, o projeto de Deus se realiza plenamente, pois nele,
se unem o divino e o humano. Por isso, é no Filho que nos tornamos
filhos. Sua humanidade é instrumento de nossa salvação1.
Jesus juntou às palavras, ações e atitudes significativas
que mostram que o Reino anunciado por Ele já se tornou presente.
Seu agir em favor dos marginalizados do seu tempo é expressão
do plano de Deus: conduzir, a partir dos pobres, todos os homens e mulheres
à comunhão com o Pai.
48. O mistério pascal de Cristo é o centro da História
da salvação e por isso o encontramos na Liturgia como seu
objeto e conteúdo principal. Esse mistério envolve toda
a vida de Cristo e a vida de todos os cristãos. "Por sua obediência
perfeita na cruz e pela glória da sua ressurreição,
o Cordeiro de Deus tirou o pecado do mundo e abriu-nos o caminho da libertação
definitiva. Por nosso serviço e nosso amor, mas também pelo
oferecimento de nossas provações e sofrimentos, nós
participamos do único sacrifício redentor de Cristo, completando
em nós o que falta às tribulações de Cristo
pelo seu corpo que é a Igreja"2.
49. Assim se entende como e por que sem a ação do Espírito
Santo não pode haver Liturgia. A Páscoa de Cristo que celebramos
é fruto do Espírito Santo que impulsionou o Filho de Deus
a realizar a vontade do Pai até as últimas conseqüências
(cf. Hb 9,14). E quem envolve no mistério pascal a vida, as lutas
e as esperanças de todas as pessoas é o mesmo Espírito,
que na Liturgia é invocado para a santificação do
pão e do vinho e a união dos fiéis. O Espírito
continua exortando-nos a que ofereçamos nossa vida e nosso compromisso
de servir aos irmãos na construção do Reino, como
hóstias vivas, santas e agradáveis a Deus. Aliás,
é este o nosso culto espiritual (cf. Rm 12,1).
50. Nesta perspectiva, acolhemos com alegria o atual anseio de, nas ações
litúrgicas, celebrar os acontecimentos da vida inseridos no Mistério
Pascal de Cristo. De fato, na Liturgia sempre se celebra a totalidade
do Mistério de Cristo e da Igreja, com todas as suas dimensões.
A vida se manifesta não apenas nos momentos fortes do culto, mas
também no esforço por crescente comunhão participativa;
na consciência de sua vocação missionária;
no empenho pela acolhida e animação catequética da
Palavra; no espírito de amplo diálogo ecumênico e
na séria, corajosa e profética ação transformadora
do mundo.
51. Quando os Bispos explicitaram estas seis dimensões nas Diretrizes
Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, tiveram em
mente o fato de que a Liturgia é o cume e a fonte de toda a ação
pastoral3. Estas dimensões não existem isoladamente e, ao
mesmo tempo, tem cada qual sua identidade: Liturgia não se confunde
com Catequese, nem com ação transformadora do mundo, embora
deva estar presente e penetrar todas as ações da pastoral.
52. Mas em cada uma dessas dimensões todas as ações
verdadeiramente pastorais têm um caráter pascal, pois são
vivências da Páscoa da Igreja, à imagem e pela força
da Páscoa de Cristo. E por isso a Liturgia as celebra.
C.
O POVO DE DEUS CELEBRA A SALVAÇÃO
53. As maravilhas operadas por Deus no Êxodo visavam reunir o povo
no Sinai para constituí-lo povo sacerdotal.
Jesus
Cristo, o sumo sacerdote da fé que professamos (cf. Hb 3,1) também
reúne seu povo, a quem, pelo Batismo, deu participar do seu sacerdócio.
Assim o novo Povo de Deus, que está no mundo vivenciando as alegrias
e as esperanças, as tristezas e as angústias com todos os
homens e mulheres de hoje, sobretudo com os pobres, é convocado
para assembléias, a fim de exercer de modo eminente o seu sacerdócio
com Cristo, por Cristo e em Cristo.
54. O Povo de Deus, sobretudo na Assembléia litúrgica se
expressa como um povo sacerdotal e organizado, no qual a diversidade de
ministérios e serviços concorrem para o enriquecimento de
todos. Sua unidade e harmonia é um serviço do ministério
da presidência. Convocada por Deus, a assembléia litúrgica,
expressão sacramental da Igreja, unida a Jesus Cristo, é
o sujeito da celebração.
55. O Povo de Deus convocado para o culto é o mesmo povo que trabalha,
faz festa, sofre, espera e luta na História. Por isso, as nossas
assembléias são diversificadas. É mister abrir espaços
de esperança à manifestação das ricas expressões
religiosas das comunidades, dos grupos étnicos e das grandes massas
empobrecidas. Porque não é possível celebrar um ato
litúrgico alheio ao contexto da vida real do povo, em sua dimensão
pascal.
56. É essa diversificada assembléia, que é servida
por ministérios e serviços multiformes, que o Espírito
suscita em sua Igreja. Entre os ministérios distinguem-se os ordenados,
do bispo, do presbítero e do diácono, participação
específica no múnus dos apóstolos, múnus este,
instituído por Jesus Cristo. Hoje temos os ministérios instituídos
do acólito e do leitor; e chamamos "de credenciados"
os serviços que o cristão leigo exerce em virtude de seu
batismo sob a coordenação de seu Bispo: são assim,
o ministério extraordinário do Batismo, da Comunhão
Eucarística e da assistência ao Matrimônio. Há
também determinados serviços litúrgicos que, de modo
estável, desempenham leitores, comentaristas, recepcionistas, componentes
do coral e, sobretudo, as Equipes de Pastoral Litúrgica. Esta diversidade
de ministérios fortalece a Igreja como comunidade e realça
a dimensão comunitária da ação litúrgica.
57. Nessa exuberante manifestação do Espírito, que
são os ministérios, há que se destacar alguns aspectos
mais significativos.
58. O serviço da presidência, como sinal visível de
Cristo-Cabeça, implica para Bispos, presbíteros e diáconos
uma renovada postura quando celebram com seu povo.
59. O diácono, como o presbítero e o bispo, não só
presidem a assembléia, mas a preparam, no sentido de que a eles
incumbe a responsabilidade de construir a comunidade, condição
importante para a celebração litúrgica.
60. "Onde a necessidade da Igreja o aconselhar, podem também
os leigos, na falta de ministros, mesmo não sendo leitores ou acólitos,
suprir alguns de seus ofícios, a saber, exercer o ministério
da palavra, presidir às orações litúrgicas,
administrar o Batismo e distribuir a Sagrada Comunhão, de acordo
com as prescrições do direito"1.
61. Hoje, para a Liturgia, o leitor é instituído para servir
à Palavra, proclamando-a no culto e fazendo-a mais conhecida na
Catequese; o acólito, no seu serviço prestado ao altar e
à distribuição da Eucaristia, acrescenta a preocupação
com a caridade, pois, sem amor ao próximo não tem sentido
partilhar o Pão eucarístico2.
62. Além dos acólitos e leitores, inúmeros homens
e mulheres assumem na celebração serviços espontâneos,
que a tornam mais participada. A Equipe de Pastoral Litúrgica,
responsável pela animação da vida e ação
litúrgicas, deve dar especial atenção a estas Equipes
de Celebração, que ajudam o presidente e a assembléia
nas celebrações litúrgicas.
63. Assim, a assembléia litúrgica, servida por um conjunto
de ministros, manifesta e realiza a "Igreja toda ministerial"3
e a diaconia que é a sua vocação. A presença
e participação dos fiéis através de gestos,
palavras, aclamações e posturas corporais tornam visível
esplendidamente a Igreja em ação4.
D.
AS DIMENSÕES DA LITURGIA
64. A Liturgia, como exercício do sacerdócio de Jesus Cristo,
tem duas dimensões fundamentais: a glorificação de
Deus e a santificação da humanidade1. Trata-se de duas dimensões
e não de dois tempos ou duas atividades estanques2. A Comunidade
que celebra tem o compromisso de evangelizar o mundo3.
Neste
fluxo e refluxo de realidades nós destacamos alguns aspectos relevantes.
1. Memorial
65. A ação litúrgica é memorial: atualiza
os fatos passados que, em Cristo e por Cristo, são sacramentos
de salvação. Além disso, tem a força de tornar
presentes as realidades futuras, levando os que a celebram a se inserirem
no projeto de Deus. Como torrente de graças transbordando na história,
o memorial celebra também em Cristo, os acontecimentos da vida
do Povo de Deus. Os milhares de homens e mulheres individual ou comunitariamente,
sob a ação do Espírito Santo, encheram de vida, sentido
e luz a sua história, revivendo nela o mistério pascal de
Jesus Cristo.
2. A glorificação da Trindade
66. Porque a Trindade é fonte e fim da Liturgia, o louvor, a glorificação
do Senhor é uma constante do culto cristão.
Não
nos esquecemos, porém, de que a glória de Deus nas alturas
realiza a paz na terra para as pessoas que Ele ama. A transformação
do homem e da mulher e do seu mundo é o meio seguro de glorificar
a Deus que os quer à sua imagem e semelhança e participando
do dom da vida com abundância (cf. Jo 10,10; Is 44,23).
3. Ação de graças
67. Nesta perspectiva, torna-se mais compreensível o hino que há
séculos ressoa nas igrejas: "Nós vos damos graças
por vossa imensa glória". A ação de graças
é importante porque, além do mais, sublinha a gratuidade
do dom de Deus que celebramos.
68. Dar graças é exigência do coração
que se vê assim beneficiado. Insistir, nas celebrações,
em considerar demasiadamente a presença do pecado deturpa a realidade
e esvazia a Liturgia, que nos convoca a louvar, bendizer, dar graças
e esperar contra toda esperança.
4. Súplica e intercessão
69. Toda oração litúrgica é feita na "unidade
do Espírito Santo". Precisamos dele para que nossa oração
não seja um programa que impomos a Deus em nosso favor, mas reconhecimento
do poder e bondade sem limites do Senhor que, fazendo vir a nós
o seu Reino, nos livra de todo o mal. Pedimos por nós e pelo mundo.
70. A súplica é sobretudo reconhecimento da grandeza de
Deus, que nos socorre, e não apenas consciência de nossa
incapacidade. Por isso, pedimos ao Espírito que nos ensine o que
devemos pedir (cf. Rm 8,26).
5. Pedido de perdão
71. A nossa condição de humanidade pecadora põe em
realce a misericórdia de Deus. Pedir perdão é oração
humilde, sincera e alegre, no encontro com a Misericórdia infinita,
que perdoa os muitos pecados a quem muito ama (cf. Lc 7,47). É
Cristo vítima, que morre e ressuscita e é celebrado na Liturgia,
quem dá sentido também aos nossos sofrimentos; transformados
em atitudes de oração penitencial, completam em nós,
seus membros, a sua Paixão dolorosa (cf. Cl 1,24).
6. Compromisso
72. Quando se tem consciência de que pecar é condição
da humanidade toda, de que a unidade de todos os homens e mulheres é
obra do Espírito Santo, e de que a glória de Deus é
a realização de seu povo também na História,
é fácil compreender que a Liturgia, além da conversão
pessoal, comporta um compromisso social.
73. O Reino de Deus que se realiza onde Deus reina por sua graça,
também se explicita no pão de cada dia, na convivência
fraternal e nos anseios de libertação de todo o mal. A Liturgia
não nos convida apenas para ouvirmos falar do Reino, mas para nos
impelir e animar a construí-lo.
7. Escatologia
74. Entretanto, sabemos que a construção da sociedade justa
e fraterna é esforço para implantar um sinal do Reino definitivo,
no qual já se encontram os nossos santos. Se fazemos memória
deles, prelibando suas alegrias, é porque toda a Liturgia é
antegozo da realidade que aguardamos, vivendo a esperança: na dimensão
escatológica de nossa Liturgia4, celebramos, de fato, a ação
salvadora e perene de Deus, que começa na criação,
manifesta-se na História e se coroa na Pátria definitiva.
E.
ELEMENTOS E FORMAS DO CULTO CRISTÃO
1. Elementos da celebração
75. No projeto do Senhor de ser o nosso Deus e fazer de nós o seu
Povo (cf. Lv 26,12), a comunicação é fundamental
e a linguagem é de capital importância. A Liturgia exprime
e constrói, sempre mais, a comunhão que o Pai decidiu levar
avante pela missão do Verbo, que se fez carne para habitar, como
um dos nossos, entre nós e pelo envio do Espírito Santo.
Por isso, a Liturgia faz sua a linguagem humana e comunica e celebra os
mistérios com os mesmos elementos com que as pessoas celebram a
sua vida.
76. O primeiro elemento litúrgico são as pessoas. A presença
de homens e mulheres no recinto em que se encontram, felizes por se reconhecerem
como convocados por Deus, faz de nossas assembléias reuniões
diferentes das que concentram pessoas em teatros ou estádios, em
reuniões sindicais, ou encontros partidários, como também
diante da TV. Elas se reúnem na fé, em nome de Cristo, conduzidas
pela ação misteriosa do Espírito que as transforma
em sinais do Reino do Pai. Daí emerge o sentido da assembléia
litúrgica.
77. A seguir, a Palavra de Deus, comunicação do próprio
Deus, que nos convoca para celebrar a Aliança, ilumina nosso caminho
e alimenta nossa vida. Primeiro porque Deus mesmo revelou o seu plano
através de acontecimentos, cujo sentido foi captado e transmitido,
sob inspiração do próprio Deus, através de
palavras humanas, que hoje constituem o texto sagrado, objeto e alimento
de nossas celebrações.
78. A celebração da Palavra de Deus na Liturgia é
presença do mistério de Cristo agindo aqui e agora, com
sua divina proposta, que aguarda nossa resposta concreta e generosa.
79. A Pastoral litúrgica esmera-se em pôr em relevo o sentido
e o valor da Palavra na celebração, quando é proclamada
na assembléia, atualizada pela homilia e se faz resposta orante
nos salmos e preces1.
80. Além da Palavra divina, o Povo de Deus escolhe cuidadosamente
palavras que exprimem sua fé, sua esperança, seus sentimentos
e suas necessidades numa primorosa e venerável coleção
de orações e hinos2.
81. Ajudam muito a comunicação humana e, portanto, fazem
parte da linguagem litúrgica, muitos elementos visuais, acústicos
e os que falam por seu movimento.
Enriquecem visualmente a celebração não só
a arte dos arquitetos, pintores, escultores e artistas populares, mas
também o bom gosto nas vestes litúrgicas, a tradição
das cores, a presença das luzes e a preocupação com
a beleza até nos menores objetos de que o culto se utiliza.
82. Auxiliam nossa prece, reforçando a palavra que ouvimos, a linguagem
universal da música, cantada ou instrumental, que os momentos de
silêncio ressaltam e, ao mesmo tempo, abrem espaço para outro
tipo de oração. E até mesmo a simples modulação
da voz pode expressar nossa alegria, nossa confiança ou nossa dor.
83. Nosso corpo, sensível e dócil ao movimento, é
uma fonte inesgotável de expressão. Por isso, na liturgia
têm importância os gestos, as posturas, as caminhadas e a
dança.
84. A força dos símbolos e sinais, sobretudo quando retirados
da vida e cultura do povo, completa a grande variedade de elementos da
nossa Liturgia.
2. Formas de celebração
85. A salvação que o Pai nos oferece chega até nós
por Cristo, na Igreja. Temos ali a graça de vivenciar, em momentos
diversos, a íntima comunhão com Deus e com os irmãos.
Esta é a nossa vocação. Chamamos formas de celebração
os diversos momentos rituais que nos permitem experimentar esta comunhão.
2.1. Os Sacramentos
86. Os momentos mais intensos dessa comunhão são os sacramentos.
A Igreja cresce constantemente com novos membros que se convertem ao caminho
de Jesus e aderem à Aliança. Ela a celebra no Batismo, fazendo-os
passar pela água numa nova páscoa e ungindo-os na Crisma
com o perfume do Espírito para que, conformados e fiéis
a Cristo, vivam sua vocação e missão na construção
do Reino.
87. A Igreja é constantemente recriada pela Eucaristia. Nela faz
o memorial da morte e ressurreição de Cristo, o sacrifício
da nova Aliança, no pão partido e repartido entre a comunidade,
no vinho vertido no cálice. Aqui é o Espírito que
transforma a matéria; comprometida com ele, a Igreja leva cada
um a partilhar o que tem, dando um novo sentido sacralizado ao universo
material e aos acontecimentos de nossa vida.
88. Jesus Cristo não só exortou os homens e as mulheres
à penitência, a fim de que deixassem os pecados e de todo
coração se convertessem ao Senhor, mas também acolheu
os pecadores, reconciliando-os com o Pai e com os irmãos. Seguindo
os seus passos, a Igreja não cessa de convidar seus membros à
conversão e restauração da vida e a manifestarem
a vitória de Cristo sobre o pecado pela celebração
da Penitência, esmerando-se em valorizar a prática da confissão.
89. Através da Unção dos Enfermos, a comunidade eclesial
concede o alívio nos sofrimentos e liberta dos pecados e Cristo
une o doente ao mistério de sua Paixão e pela graça
do Espírito Santo, o associa à sua ação redentora.
E dá ainda ao doente, que vê sua existência desestruturada
pela enfermidade, a força suficiente para rever seu projeto de
vida cristã.
90. A Igreja escolhe alguns homens no meio do povo, os quais marcados
pelo sacramento da Ordem, agem "in persona Christi" e, assim,
unidos ao Cristo Sacerdote, se tornam ministros da unidade e servidores
do povo.
91. Através do Matrimônio cristão a Igreja celebra
a Aliança de amor de Deus com os homens e mulheres e o amor de
Cristo e da Igreja. Os esposos, mergulhados, desta forma, neste profundo
mistério de amor, proclamam, pela vida afora, a fidelidade de Deus
à humanidade.
92. Vemos aqui como pelos sacramentos a Liturgia leva a fé e a
celebração da fé a se inserirem nas situações
concretas da vida3.
2.2. Celebrações na ausência do presbítero
93. No Brasil a maioria do povo fiel, em milhares de comunidades, que
não contam ordinariamente com o presbítero, através
da Palavra celebram o mistério de Cristo em suas vidas. E sendo
a Palavra de per si, depois dos sacramentos, o modo mais importante de
celebrar, temos mais de um motivo para refletir sobre esta forma de celebração,
como o vem fazendo, aliás, a própria Sé Apostólica
em nível universal4.
94. A partir do dia de Pentecostes a Igreja não mais deixou de
reunir-se em assembléia, no Dia do Senhor, para celebrar o mistério
pascal de Jesus pela proclamação da Palavra e a Fração
do Pão5. A Celebração eucarística, portanto,
é a celebração mais plena e mais apropriada do Dia
do Senhor.
95. O surgimento rápido de inúmeras comunidades eclesiais,
ultrapassando a capacidade de atendimento dos presbíteros, leva
o Povo de Deus a reencontrar no tesouro da tradição litúrgica
da Igreja a celebração da Palavra para alimento de sua fé,
de sua comunhão e de seu compromisso6.
96. Nesta celebração da Palavra, o Cristo se faz verdadeiramente
presente, pois é ele mesmo que fala quando se lêem, na Igreja,
as Sagradas Escrituras7. Além de sua presença na Eucaristia,
eventualmente distribuída, está também, na assembléia,
pois prometeu estar entre os seus que se reúnem em seu nome (cf.
Mt 18,20).
97. É nesta celebração que muitas de nossas comunidades
encontram o alimento de sua vida cristã. Formadas por gente simples,
em luta pela sobrevivência e mais abertas à solidariedade,
estas comunidades espontaneamente unem a Escritura à vida e, criativamente,
integram preciosos elementos da religiosidade popular.
98. Contudo, não confundimos nunca estas celebrações
com a Eucaristia8. missa é missa. Celebração da Palavra,
mesmo com a distribuição da Comunhão, não
deve levar o povo a pensar que se trata do sacrifício da missa.
É errado por exemplo, apresentar as oferendas, proclamar a Oração
eucarística, rezar o Cordeiro de Deus e dar a bênção
própria dos ministros ordenados9.
99. A celebração da Palavra tem seus próprios valores
nos vários elementos que a integram:
—
reunião dos fiéis para manifestar a Igreja10
—
proclamação e atualização da Palavra que a
faz transformadora;
—
preces, hinos, cantos de louvor e agradecimento, que são a resposta
orante dos fiéis;
—
saudação da paz, ofertas de bens e, quando houver, Comunhão
eucarística que, a um tempo, expressam a solidariedade eclesial
e o compromisso de transformar o mundo.
100. A coordenação desses elementos exige um serviço
de presidência. Os diáconos são os primeiros encarregados
de dirigir esta celebração11. Entretanto, quando não
houver diácono ou ministro instituído, todo o cristão
leigo, homem e mulher, por força de seu Batismo e Confirmação,
assume legitimamente este serviço12. Recomenda-se que os encarregados
desta atividade sejam apresentados à comunidade em celebração
especial para tornar mais evidente a comunhão eclesial. Seja feita
esta designação por um período determinado de tempo.
101. Assim presidida, a celebração se desenvolve num ritmo,
que exprime bem o diálogo entre Deus e a assembléia:
—
Os Ritos iniciais expressam o Senhor, que chama e reúne seu povo,
e o povo que alegremente vem e se apresenta. Breve monição
lembrará à comunidade sua união com a Igreja local,
onde os irmãos celebram e lutam na construção do
Reino13.
—
Na Liturgia da Palavra, proclamada e explicada, o Senhor fala da salvação
ao seu povo, que responde professando a fé, pedindo perdão,
suplicando, louvando e bendizendo.
—
A ação de graças é um ponto alto, porque a
grande resposta ao Deus que se faz Salvador é o homem e a mulher
agradecendo. Por ela se louva e se bendiz a Deus por seu grande amor.
Um hino, um canto, uma oração litânica podem exprimi-la
após a Oração dos fiéis, da Comunhão
ou no final da celebração14.
—
Pela Comunhão eucarística, a assembléia exprime e
realiza aí íntima união com Cristo e com a Igreja.
—
Pelos Ritos de conclusão os fiéis, que tomaram consciência
de que são enviados, assumem o compromisso da sua missão
a serviço do Reino na vida concreta.
102. Finalmente, não podemos esquecer que a celebração
da Palavra tem uma ampla dimensão educativa, levando o povo à
sadia criatividade, à valorização dos ministérios,
ao compromisso com o Reino e ao amor à Eucaristia, como expressão
da plena comunhão eclesial.
2.3. Sacramentais
103. Na vida celebrativa do nosso povo têm relevo também
as bênçãos, as exéquias, as orações
comunitárias. A Santa Igreja mostra seu apreço aos lugares
e pessoas consagradas através de ritos solenes, por exemplo, para
a dedicação das igrejas e a profissão religiosa.
104. As bênçãos. A Igreja, que louva e bendiz a Deus,
também abençoa e consagra as pessoas e tudo que concorre
para sua vida. Benzer, para a Igreja, significa afastar o véu que
encobre o bem que já na criação o Senhor depositou
nas coisas e o Redentor deseja e oferece aos homens e mulheres que ele
salva.
105. É nos acontecimentos e situações de sua vida
que o povo deseja e procura os vestígios da bondade de Deus. Abençoando,
sempre a partir da proclamação da Palavra, a Liturgia dá
resposta plena a estes anseios humanos15.
106. As bênçãos, além de sua dimensão
evangelizadora, abrem perspectivas para a pastoral, que busca a mútua
fecundação entre Liturgia e religiosidade popular.
107. Exéquias. A dura realidade da morte com seu doloroso cortejo
de sofrimentos e separações de entes queridos toca no mais
profundo anseio de toda a humanidade: anseio de vida e convívio
perene e feliz.
Nossa
fé no mistério pascal, no sentido da morte e ressurreição
de Cristo, nos conduz à Pastoral da esperança, celebrada
na Liturgia com grande respeito pelos sentimentos e costumes do povo nas
diversas regiões. "Na ausência do ministro ordenado,
os ministros de culto, especialmente, nas capelas rurais, presidam as
exéquias, com ritual próprio, ressaltando a liturgia da
Palavra e as orações adequadas à ocasião.
2.4. Oração comunitária
108. A nossa oração é participação
no diálogo de Cristo com o Pai e da oração que lhe
dirigiu durante sua vida terrena em nome e pela salvação
de todo o gênero humano16. É essa piedade de Cristo que continua
na Igreja de modo eminente na Liturgia das Horas.
109. Santificando o dia, ela santifica os homens e as mulheres em todas
as suas atividades e louva a Deus em todos os momentos: porque é
preciso orar sempre sem nunca interromper esse diálogo (cf. Lc
18,1; 1Ts 5,17). Todos portanto, são convidados a participar da
Liturgia das Horas, fazendo seus os sentimentos e desejos da Igreja17.
110. Quando circunstâncias diversas privaram o povo das riquezas
desta oração, os fiéis se refugiaram na chamada piedade
popular, e, conservando as reminiscências do culto de louvor, chegaram,
a seu modo, a expressar sua fé, celebrar sua vida e cultuar o seu
Deus. Haja vista o Rosário de Nossa Senhora, o Angelus, celebrando
a Encarnação nas horas marcantes do dia e a Via sacra, explicitando
os passos da Paixão. E as romarias rumo aos santuários traduzem
de modo concreto a nossa caminhada, seguindo o Cristo peregrino e festejam
a universalidade da Igreja aberta para todos.
Não
será demais, por isso mesmo, recordar que os santuários
devem dar à Liturgia uma especialíssima atenção.
F.
A IGREJA CELEBRA NO TEMPO
111. O Domingo, como um dia especial, Natal e Páscoa, como tempo
de festa, são realidades na vida de todas as pessoas, sejam ou
não membros da comunidade eclesial1.
112. Nossa fé, porém, vê mais em tudo isso. Tem consciência
da plenitude da salvação realizada por Cristo, em quem tudo
foi criado, razão por que é sua missão recapitular
em si todas as coisas (cf. Cl 1,16). Seguindo a sucessão de dias
e noites e o movimento regular do sol, que põe ritmo evidente no
nosso universo, o cristão se compraz em celebrar também
ritmadamente o mistério de Cristo. O Senhor santificou todo o tempo
e, por isso, todos os dias são santificados. Na vida concreta,
porém, para recordarmos esta verdade, chamamos de "santos"
certos dias e certos tempos em que abrimos mais espaço para celebrar
o mistério de Cristo ou algum aspecto da salvação.
1. O Domingo
113. O cristão, à semelhança dos judeus, consagrou
um dia por semana à celebração de seus mistérios.
A escolha recaíu sobre o primeiro dia da semana, dia da Ressurreição
do Senhor, dia também que recorda a criação em Cristo,
o recapitulador da História. Por isso, além de ser o Dia
do Senhor, o Domingo é também o dia do Homem que busca viver
a liberdade2.
114. Em nenhum momento, homens e mulheres seguidores de Cristo se sentem
melhor como filhos de Deus do que na celebração da Eucaristia.
O memorial da morte e ressurreição de Cristo, que nos faz
filhos no Filho (cf. Jo 1,12; Gl 3,26), nos une de tal modo a Jesus que
em Cristo, com Cristo e por Cristo, na unidade do Espírito Santo,
damos ao Pai toda a honra e toda a glória. Por isso, a Eucaristia
é a celebração primordial do Domingo. Celebração
eucarística a que estão ligadas de certo modo as inúmeras
celebrações da Palavra nas comunidades que não têm
padre.
115. Mas não é só a missa que celebra o Dia do Senhor.
As primitivas celebrações do Domingo, centradas na Fração
do Pão se realizavam dentro da reunião alegre dos que juntos
comiam com simplicidade de coração (cf. At 2,26). Cessar
o trabalho neste dia não é só para descansar, que
tem também o seu valor, mas para oferecer oportunidade de encontro
com os irmãos. São celebrações do Domingo,
acolhendo o Ressuscitado, que deseja nossa união fraterna (cf.
Jo 17,21), as horas de convívio alegre e gratificante com os seus,
as obras de misericórdia com os que sofrem e a partilha da Palavra
em momentos de aprofundamento e reflexão.
116. O Senhor, dizendo aos homens e mulheres "dominai a terra"
(cf. Gn 1,28), nos fez senhores deste mundo. Este senhorio restaurado
por Cristo deve ser intensa e conscientemente celebrado. Urge ver no descanso
não apenas um espaço para o ócio, mas a proclamação
cristã da libertação dos filhos de Deus de todo o
mal, que o pecado injetou no trabalho através do suor, da ganância,
da competição e exploração. E ver ainda no
passeio, na recreação e no esporte o exercício daquela
realeza com que Deus coroou seus filhos e suas filhas, capacitando-os
para dominar a natureza, brincar com ela e usufruir de suas riquezas inesgotáveis.
117. Sentimos fundo no coração a deturpação
do Domingo, imposta pelas injustiças e pelo consumismo de nossa
época dominada pelo espírito secularista.
Alguns
são obrigados a trabalhar no Domingo por imposição
de suas profissões. A caridade com que exercem seus deveres é
seu sacrifício espiritual, já que estão impedidos
de celebrar plenamente o Dia do Senhor. Inaceitável, outrossim,
é a sociedade que obriga multidões à luta pela sobrevivência
por causa do trabalho mal remunerado, que desfigura o Domingo feito dia
de horas-extras. A própria realidade urbana dificulta, muitas vezes,
a vivência cristã do Dia do Senhor.
118. Lamentamos também o consumismo secularista, que leva centenas
de pessoas ao mero lazer, viagens e programas, que mais parecem criados
para distrair ou dirigir as atenções em direção
oposta ao culto e à religião.
119. Corremos também o risco de esvaziar o sentido do Domingo com
o excesso e superposição de comemorações,
que pretendemos realçar neste dia, sem notar que não sobra
espaço para celebrar o mistério pascal.
Núcleo
de todo o Ano Litúrgico e ponto de convergência de todos
os dias da semana, o Domingo espera, urgentemente, mais atenção
de nossa pastoral.
Nas
paróquias com muitas comunidades, programe-se a celebração
das missas dominicais de modo a possibilitar, por turno, o Santo Sacrifício
em todas elas. Para isso é necessário reeducar as comunidades
centrais no sentido de se contentarem com a celebração da
Palavra, quando a missa é celebrada nas outras.
120. A Semana tem tonalidade pascal particular, quando celebrada à
luz do Domingo. Elementos do mistério de Cristo e da Igreja são
recordados na sucessão de seus dias, sendo que a consagração
do Sábado a Maria é muito cara à piedade popular.
Se a Liturgia das Horas faz deste último dia, o dia da feliz consumação,
com razão celebramos aquela que, assunta ao céu em corpo
e alma, já se encontra na glória. Associada ao Cristo, ela
é também protótipo da pessoa humana glorificada.
2. Os Ciclos do Ano Litúrgico
121. A Páscoa e as alegrias de celebrá-la são grandes
demais para caberem nos limites de um Domingo. Desde cedo a Igreja passou
a consagrar a isso o ano todo, dividindo-o em ciclos: um conjunto de domingos
para celebrar o Salvador, que se manifesta ao mundo; e outro grupo dedicado
à Paixão-Morte e Ressurreição de Cristo, que
nos envia o Espírito Santo. E entremeando estes dois ciclos, numa
longa série de domingos, revive-se o que Jesus fez e disse como
nosso Redentor.
122. Tríduo Pascal. Assim como o Domingo é o ponto alto
da semana, o Tríduo pascal da Paixão-Morte, Sepultura e
Ressurreição do Senhor é o ápice luminoso
de todo o Ano litúrgico3.
123. O Tríduo pascal começa na Quinta-Feira, à hora
da Ceia do Senhor, quando Cristo antecipa sacramentalmente sua Morte e
Ressurreição. Após um dia de penitência, que
é a Sexta-feira Santa e um dia de silêncio, o Sábado,
o povo cristão concentra suas atenções na Vigília
pascal, mãe de todas as vigílias4, porque celebra a Ressurreição
de Jesus e a dos cristãos com ele.
124. Tempo pascal. Os cinqüenta dias entre o Domingo da Ressurreição
do Senhor e o Domingo de Pentecostes sejam celebrados como um grande domingo,
um só dia de festa5. São celebrações que convergem
para o Cristo vitorioso e entre nós, enquanto Pentecostes, com
a vinda do Espírito Santo, lembra o coroamento e a culminância
da Páscoa do Senhor.
125. Páscoa é festa e novo ritmo de vida. O Espírito
que o Senhor nos dá nos impulsiona continuamente a viver a nossa
páscoa, que são as múltiplas passagens da morte para
a vida.
126. Quaresma. A Igreja preparou os catecúmenos para a iniciação
cristã nos quarenta dias que precedem a Páscoa. Hoje a Quaresma
convoca-nos para a oração, o jejum e a caridade expressa
pela esmola. Assim manifestamos a nossa abertura para a Palavra de Deus,
que nos leva à conversão de nossos pecados, para vivermos
a fraternidade em que fomos inseridos pelo Batismo.
127. A Campanha da Fraternidade, com que a Igreja, no Brasil, desencadeia
um grande movimento de evangelização, recebe da Liturgia
o incentivo para seu espírito de caridade e o desejo de conversão
com que anima sua pregação nos Meios de Comunicação
Social, nas aulas de religião e grupos de estudo e oração.
A
Campanha da Fraternidade, por outro lado, cada ano pede à Liturgia,
um gesto concreto de conversão para todas as comunidades do país.
128. Advento, Natal e Epifania. A salvação começa
com o mistério do Natal, quando Cristo, edificando sua tenda entre
nós (cf. Jo 1,14), une o homem a Deus e aos irmãos, reconstituindo
a grande família humana.
129. A preparação para o Natal tem características
próprias. Evocando a expectativa que precedeu a vinda do Messias,
nos põe no coração toda a alegria e gratidão
por sermos salvos. Ao mesmo tempo aprofunda o sentido da segunda vinda,
o fim dos tempos, onde teremos em plenitude os bens que o Natal começa
a dar-nos e nos convida a procurar.
130. A Liturgia do Natal celebra ainda a visita dos magos, o Batismo de
Jesus e o Casamento de Caná: porque Cristo quis revelar-se desde
o princípio como o Salvador de todos, veio capacitar-nos para sermos
filhos no Filho e santificar as grandes realidades humanas.
131. Chamamos, de maneira não completamente feliz, de "Tempo
comum" o mais longo tempo de celebrações litúrgicas
em que evocamos o mistério de Cristo em sua plenitude: são
33 ou 34 semanas dedicadas ao memorial do que Cristo fez e disse, esclarecendo
as dimensões de nossa salvação. Foi para pregar e
operar sinais que ele nasceu; morreu para se mostrar fiel à sua
missão; e ressuscita para continuar suas atividades na Igreja de
maneira sacramental.
132. O Tempo comum não é tempo vazio. É tempo de
a Igreja continuar a obra de Cristo nas lutas e nos trabalhos pelo Reino.
133. O Santoral. Temos na Liturgia, sobretudo no Tempo comum, um calendário
de comemorações e festas dos santos e, em especial, da Virgem
Maria. Ninguém desconhece quanto é cara ao nosso povo a
devoção aos santos, abrindo-nos horizontes para nossa pastoral.
A Liturgia valoriza este culto. Se nos ciclos do Natal e da Páscoa
celebramos o que Cristo fez para sua Igreja, já na comemoração
da Mãe de Deus e de todos os santos evocamos o que a Igreja realiza,
em Cristo, para a glória do Pai.
134. Por isso, não basta procurar nos santos apenas proteção
nas diversas contingências da vida; impõe-se mais tê-los
como verdadeiros modelos de vida, inspiradores de nosso projeto cristão.
135. Assim, Maria, para além de toda ternura que sua devoção
inspira, deve ser vista sobretudo como Mãe da Igreja; pois assim
como o filho traz em seu rosto os traços de sua mãe, nós
cristãos nos empenhamos por marcar nossa vida com a escuta da Palavra,
o amor incondicional a Cristo e a caridade solícita para com os
irmãos, que caracterizam a santidade de Maria.
136. Finalmente, não podemos deixar de notar uma certa defasagem
que sofremos, celebrando a Liturgia única em nossas regiões.
O Ano litúrgico, calcado sobre os ciclos cósmicos, encontra
maior força de expressão quando se celebra a Páscoa
para a nova Vida num cenário em que a natureza eclode numa floração
de cores e vida. Cabe-nos suprir esse desencontro, ressaltando na Liturgia
outros sinais; em vez da vida que ressurge no cosmos, uni-la à
Vida que anseia na História. Nesta linha se compreende melhor,
por exemplo, a Campanha da Fraternidade, que nos faz refletir sobre os
sinais de morte, que marcam nossa sociedade para nos abrir, na Páscoa
e pela Páscoa, às perspectivas de Vida, que Cristo nos oferece
e nós devemos construir.
Por
isso também merece atenção a iniciativa de algumas
regiões do Brasil, que celebram no último domingo de maio,
final das grandes colheitas, o "Dia do Louvor".
G.
ESPAÇOS E OBJETOS PARA A CELEBRAÇÃO
137. No nosso país, por toda parte, onde quer que se aglomerem
moradias, o povo sente necessidade de local de reunião para celebrar
sua fé.
138. No Missal e na Liturgia das Horas têm um natural destaque as
festas de Dedicação das igrejas.
Embora
as exigências pastorais façam surgir hoje novos lugares para
celebração litúrgica, o templo é o espaço
mais conveniente para nosso culto.
139. O templo é sinal da presença e ação salvífica
do Pai; é imagem do Corpo Místico de Jesus Cristo, único
e verdadeiro templo, construído com pedras vivas para oferecer
sacrifícios novos (cf. Jo 2,19 e 21). O próprio Deus consente
que nossos edifícios sejam sua casa1, pois nesse espaço
ele nos dá vivenciar a sua união conosco e a união
fraterna entre nós.
140. Por isso, a igreja-edifício é sinal também da
Igreja-Comunidade2. Assim este edifício não é uma
construção qualquer: é sinal da Igreja peregrina,
é imagem da Igreja celeste3.
141. A Igreja, como família de Deus, precisa de uma casa para reunir-se,
dialogar, viver na alegria e na comum-união os grandes momentos
de sua vida religiosa.
Tendo
em vista a crescente urbanização, os pastores cuidem, devidamente,
de que todas as comunidades sejam dotadas de locais de culto identificados
claramente. Para manter a memória do sagrado no mundo que se dessacraliza,
valorize-se o toque dos sinos nos horários devidos.
142. A Igreja-edifício deve ser funcional e significativa, favorecendo,
através de configuração e distribuição
dos dois espaços fundamentais, tanto a execução da
ação litúrgica quanto a participação
ativa dos fiéis4.
Para
que cada um possa exercer corretamente a sua função, tenham
o devido destaque, o presbitério, o altar, a sede da presidência,
a mesa da Palavra, a cruz, o tabernáculo e lugar para os diferentes
ministérios, para favorecer a participação dos fiéis5.
143. A ornamentação do local concorre muito para expressar
o sentido do templo. Por isso, nossas igrejas e também os outros
lugares onde se celebra o culto, devem recorrer à arte e ao bom
gosto para criar um ambiente religioso digno, cômodo, funcional
e simples, sem ser banal. Cuidado especial se deve ter com a acústica,
para possibilitar a comunicação da palavra e a execução
da música, que pode impregnar o ambiente de nobreza e religiosidade
quando ressoa bem.
144. Os vasos sagrados, os lugares, os livros e as vestes merecem atenção
especial. No altar mantenha-se apenas o estritamente necessário
para a Celebração eucarística.
É
tradicional o costume de empregar material nobre para os vasos sagrados,
dando-se liberdade aos artistas para executá-los com criatividade
e bom gosto6.
145. Os livros litúrgicos sempre foram cercados de especial veneração
e trabalhados com arte esmerada por conterem a Palavra de Deus. Proclamá-la,
lendo folhetos, não expressa a dignidade da Palavra e o apreço
que por ela temos. Urge reintroduzir em nossas celebrações
o uso dos Lecionários ou ao menos da Bíblia, para que possamos
melhor sentir e expressar o apreço por Deus que nos fala.
146. As vestes litúrgicas com suas formas especiais e cores variadas7,
são sinais para o povo e para os próprios ministros de que
eles agem aqui e agora em nome e na pessoa de Cristo e da Igreja. Indicam
ainda a diversidade dos serviços prestados na celebração
através do ministro8.
147. A CNBB aprovou o uso da túnica ampla de cor neutra com a estola
da cor do tempo ou da festa. Na confecção destas vestes
deixa-se campo aberto à criatividade artística, que sabe
respeitar o decoro do culto e a expressão de nossa cultura.
148. Os elementos-sinais na celebração. Como sacramento
de Cristo, a Igreja revela e realiza a glorificação de Deus
e a santificação da humanidade através de elementos
naturais: pão, vinho, óleo, água, luz, fazem parte
do comer, beber, ungir, lavar e iluminar, que são sinais nos sacramentos.
A Liturgia recupera assim o sentido do mundo criado, revelando nos vários
elementos a sua capacidade de expressar simbolicamente a bondade do Criador.
É
conveniente que esses elementos, para melhor serem sinais, sejam usados
com certa abundância, que represente a refeição, o
banho purificador, a unção reconfortante.
H.
LITURGIA E ESPIRITUALIDADE
149. Vida espiritual é uma vida orientada e alimentada pelo Espírito,
que Cristo prometeu e derramou em Pentecostes. Desde então é
o próprio Espírito que, dando testemunho ao nosso espírito
de que somos filhos de Deus, nos leva a viver como irmãos e irmãs
e a construir o mundo, sinal do Reino, que Deus quer para sua família.
150. Como testemunham os Atos dos Apóstolos (At 2,42) os primeiros
cristãos assimilaram logo as dimensões bíblica, comunitária,
sacramental e de compromisso da vida cristã. Pois freqüentavam
a doutrina das testemunhas da Ressurreição, o encontro com
os irmãos, o partir do pão entre orações,
conquistando a simpatia de todo o povo (cf. At 2,27).
151. Na Igreja existem diversas formas de espiritualidade, nascidas do
modo de viver o seguimento de Cristo sob o impulso do Espírito
Santo, que é sempre o mesmo e, entretanto, distribui generosamente
sua diversidade de dons (cf. 1Cor 12,4-11).
152. Muitos santos, e alguns deles fundadores de Congregações
e Ordens religiosas, graças ao carisma que lhes é próprio,
iniciam um estilo de vida expresso na maneira de aceitar o dom da filiação
e o projeto do Pai. E para felicidade da Igreja, fizeram escola.
153. A Liturgia é fonte de vida e expressão celebrativa
da comunidade eclesial. Nela, homens e mulheres chegam ao mais alto patamar
da comunhão com Deus, quando a criatura amada e redimida por seu
Senhor, dilata seu coração numa perene ação
de graças, que se torna, por sua vez, bendita escola de gratuidade.
Por outro lado, os leigos encontram fundamento para sua espiritualidade
no Evangelho vivido por tantos cristãos leigos ao longo da história
da Igreja.
154. Além disso, as comunidades eclesiais encontram na Liturgia
os grandes elementos de toda vida espiritual: ali está a Palavra
nos espaços privilegiados que as celebrações lhe
dão.
155. Nunca rezamos tão unidos como na Liturgia, que se define como
ação comunitária por excelência e é
vista como escola e expressão alta de comunhão.
156. A Liturgia é sinal e instrumento da graça e se desenvolve
na celebração da Palavra, da Eucaristia e dos outros sacramentos.
157. E porque o mistério pascal de Cristo celebrado e atualizado
em cada sacramento deve ressoar e completar-se na vida, toda a Liturgia
deve levar a um compromisso social. O cristão celebrante é
sinal vivo do mistério pascal e portanto instrumento de salvação
integral. Por outro lado, na medida em que as comunidades estão
comprometidas com a transformação do mundo, seu engajamento
repercute na Liturgia, fonte e ápice de toda a vida cristã.
158. A espiritualidade ou seja a vida que o Espírito implanta na
escuta da Palavra, na construção da comunidade, na Fração
do Pão, é a vida dos seguidores de Cristo. Portanto, Cristo
é o centro de toda espiritualidade. E é para alimentá-la
que ele se encontra no centro da Liturgia.
159. As celebrações são o exercício do sacerdócio
de Cristo, revelam, anunciam e tornam presentes as ações
redentoras do Filho de Deus, sacrificado pela libertação
e salvação da humanidade.
160. Ligada a Cristo, que é o Verbo feito carne para viver as realidades
humanas, a Liturgia anima a vida cristã como a alma, todo o corpo.
Dá dimensão espiritual à Semana pela celebração
do Domingo, ao Ano todo pela seqüência dos ciclos; está
presente nos pontos altos da vida, pelos sacramentos e nos acontecimentos
e situações do dia-a-dia, através da celebração
de bênçãos apropriadas.
Em
síntese, pode-se dizer: a espiritualidade litúrgica é
o exercício antêntico da vida cristã, como vida em
Cristo, enraizada nos sacramentos da Iniciação Cris
I.
ADAPTAÇÃO E CRIATIVIDADE
161. A reforma litúrgica provocou uma onda de reflexões
e iniciativas, visando a encarnação das celebrações
na vida, na índole e expressão do nosso povo. Para torná-la
mais atraente, buscaram-se meios, nem sempre felizes, de torná-la
menos desencarnada, fria e sem vida e mais espontânea, alegre e
popular1.
162. Este esforço de incorporação das expressões
culturais em nosso culto tem suas razões de ser. A longa história
da Liturgia nos mostra como e quanto as adaptações lhe são
conaturais.
163. Haja vista o apelo que nos vem, neste sentido nos grandes documentos
da renovação litúrgica, pois a Igreja não
deseja impor forma única e rígida de celebração,
sem atender às legítimas variações exigidas
pela diversidade dos grupos, regiões e povos2.
164. Entretanto, estamos aqui num terreno complexo e difícil, não
só devido à herança pesada de quatro séculos
de imobilismo, mas também porque não é fácil
mudar as formas da celebração sem violentar a identidade
da Liturgia. Além de um profundo conhecimento da Liturgia em suas
dimensões teológicas e histórica, impõe-se
formar uma idéia clara e firme do que se pretende com as várias
adaptações que buscamos3.
165. A este propósito as palavras que mais se repetem são:
adaptação, criatividade, aculturação e inculturação.
São noções ricas, mas às vezes não
bem e inteiramente compreendidas.
166. Adaptação. O objetivo da Liturgia é comunicar
à humanidade a vida de Cristo e apresentar ao Pai seu culto de
glorificação. Ela o alcança através de formas
litúrgicas renováveis conforme os tempos e situações
culturais dos povos. Essa renovação pedagógica e
pastoral é que chamamos adaptação.
167. O grande motivo para mudar palavras, gestos, sinais e ritos não
é o gosto das pessoas celebrantes ou a moda em voga em determinados
momentos, mas a maior participação no culto a Deus4 integrado
em nossa vida atual.
168. Por isso, a adaptação litúrgica se faz com critérios:
é para tornar os sinais mais transparentes à mentalidade
e cultura do povo; é para conseguir aquela participação
consciente e ativa que nos põe em comunhão com a Igreja
local e universal; é para ressaltar melhor o conteúdo fundamental
de nossa Liturgia, que é celebração da fé
no mistério de Cristo, ponto culminante do projeto de Deus.
169. Esta adaptação com estes critérios se exerce
em vários níveis: tem lugar tanto na tradução
dos textos e modificação dos ritos, como na celebração
dos sacramentos e da Eucaristia, atenta à índole das diferentes
assembléias.
170. Criatividade. Tanto a adaptação, como a aculturação
e a inculturação, exigem muita sensibilidade e inteligência
clara na hora de se reformular ritos, gestos, sinais e textos.
Por
criatividade não se deve entender tirar como que do nada expressões
litúrgicas inéditas. Pelo contrário, a verdadeira
criatividade é orgânica: está ligada aos ritos precedentes
como o celebrante de hoje aos do passado. Uma fé, que não
cria cultura, não foi suficientemente anunciada, não foi
completamente assimilada ou não foi plenamente vivida.
171. Para melhor entender a criatividade é mais prático
observar onde ela se realiza.
Celebrar
bem é o primeiro princípio da criatividade. O presidente
da assembléia, por exemplo, não pode executar gestos e textos
sempre do mesmo modo, quando está só com crianças
ou num pequeno grupo ou numa igreja lotada.
172. E sobretudo, em qualquer situação, fazer com que os
ritos e as palavras tenham vida e exprimam a fé que desperta a
Palavra proclamada, a oferta trazida ao altar, a procissão rumo
à mesa eucarística. Nada disto se encontra nas rubricas:
é preciso criar.
173. Já há espaço para a criatividade nas opções
oferecidas pelos livros para vários ritos, como o ato penitencial,
leituras para os sacramentos e para o canto. É com as atenções
voltadas para a assembléia que a escolha deve ser feita, quando
se prepara seriamente a celebração. O mesmo se diga, com
mais razão, das várias aberturas que são dadas ao
presidente para fazer a sua exortação ao seu povo. Os folhetos
deveriam oferecer possibilidades para as devidas adaptações
dentro de uma sadia criatividade.
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