Frei
José Ariovaldo da Silva
1. A palavra “homilia” é uma palavra grega, que adotamos
em nosso linguajar. Significa, basicamente, uma conversa familiar e espontânea,
tecendo comentários em torno de alguma notícia boa que recebemos.
Comenta-se a notícia, inclusive ressaltando o sentido e importância
da mesma para a vida, bem como para a nossa postura frente à vida.
2.
No contexto de uma celebração litúrgica, quando se
fazem as leituras bíblicas, isto é, quando se proclama a
Palavra, é o Senhor mesmo que (na voz do leitor ou da leitora)
fala para o seu povo reunido em assembléia e lhe comunica uma notícia
boa, uma novidade que ele tem para dar. E a grande notícia, antes
de tudo, é ele mesmo, sua Páscoa sempre atual. No caso da
homilia, em que se comenta a Palavra ouvida, é também o
Senhor que (na voz do homiliasta) nos “explica as Escrituras”
(cf. Lc 24,27). Cristo está “presente quando se lêem
e se comentam as Escrituras” (Sagrada Congregação
para o Culto Divino, Instrução “Eucharisticum Mysterium”,
n. 55).
3.
Por isso, o Concílio Vaticano II, há 40 anos, vem ensinando
que a homilia é parte integrante da divina Liturgia (cf. SC 52).
Em outras palavras, é uma verdadeira ação litúrgica.
E, por ser ação litúrgica, nela toda a assembléia
deve de alguma maneira sentir a própria presença do Senhor
comentando e atualizando para nós hoje as Escrituras.
4.
Para que isso aconteça, a homilia deve ter como base sempre a Palavra
que foi proclamada e ouvida na celebração. Ela é
como uma espécie de ressonância da boa notícia trazida
por Deus. É um momento pascal e de experiência pascal. Momento
litúrgico, no qual se pode sentir e perceber o Senhor vivo se comunicando
com seu povo.
5.
Outra coisa importante. A homilia, por ser no fundo uma ação
do Senhor através do ministério de quem a faz, deve ter
sempre um olho atento na realidade concreta da vida do povo. Pois é
aí que se faz presente a Páscoa (paixão, morte e
ressurreição) do Senhor. Páscoa da gente na vida
de Cristo, e Páscoa de Cristo na vida da gente.
6.
E mais: A homilia deve também estar de olho no tempo litúrgico
em que se vive o mistério de Cristo: Advento, Natal, Tempo Comum,
Quaresma, Páscoa, festa de padroeiro etc. Por ser ação
litúrgica, ela nos insere no Mistério pascal do Senhor celebrado
e vivido em cada tempo do ano litúrgico. Deve, portanto, estar
estreitamente vinculada com o ano litúrgico.
7.
Inclusive não podemos esquecer que a homilia, por ser ação
litúrgica, tem também a função de fazer a
ligação da Palavra ouvida com o momento celebrativo, ou
melhor, com a ação litúrgica a ser realizada em seguida.
Por exemplo, com a liturgia eucarística, se for na missa. Ou com
um momento de louvor se for celebração dominical da Palavra.
A palavra ouvida que nos “tocou” pelos ouvidos, nos faz irromper
numa reconhecida e intensa ação de graças, e se transforma
em ação sacramental pela qual o Senhor nos “toca”
e nos salva em todo o nosso corpo: físico, mental, emocional, espiritual.,.
8.
Finalmente, por tudo o que vimos acima, dá para perceber também
que a homilia, longe de falsos moralismos, deve ter antes de tudo um cunho
orante, isto é, que expresse de alguma maneira a vivência
da divina Liturgia como um encontro amoroso e comprometido entre Deus
e Comunidade. A homilia deve transpirar espiritualidade e mística,
que suscitará uma espontânea resposta da Comunidade, em forma
de profissão de fé, súplica, ação de
graças, participação sacramental e compromisso cristão
(Creio, Oração dos fiéis, Oração eucarística
e Louvação, Comunhão, Vivência da caridade).
9.
E para aprofundar, uma sugestão de leitura bem atual: BUYST Ione,
Homilia, partilha da Palavra (= Coleção Rede Celebra 3),
Paulinas, São Paulo 2001; BECKHÄUSERAlberto, Comunicação
litúrgica: Presidência, Homilia, Meios Eletrônicos,
Vozes, Petrópolis 2003, p. 35-84.
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